Uma mãe mogiana

Ela é uma mãe mogiana. Graduada na área de biomedicina com pós-graduação na Ásia. Os que a conhecem sabem que dificilmente ela perde o sorriso, marca registrada nos lábios finos. Não o perdeu nem mesmo quando, alguns dias após o parto do único filho, veio-lhe o diagnóstico de que algo não estava bem com o pequeno; tampouco a separação do marido tirou-lhe o otimismo pela vida. O filho sofre de uma síndrome raríssima, que lhe dificulta a locomoção e torna qualquer movimento um exercício difícil.

Para esta mãe mogiana, entretanto, nada parece impossível. Tornou-se, ao lado da única irmã e do pai, uma quase especialista no mal que aflige o filho. Onde há uma esperança de nova terapia, lá corre ela. No Brasil ou no Exterior. Argentina e Estados Unidos são destinos constantes. Nunca encontrou transtornos nas viagens. Seja nos balcões de check-in dos aeroportos, na acomodação durante os voos, nas idas e vindas às clínicas, para as quais sempre há facilidade de acesso, garantida pela Cidade que os acolhe; uma prova de civilidade. Também no Brasil jamais enfrentou qualquer outro, desde que o filho nasceu. Para locomoção ele depende de um equipamento que, à falta de outra definição, pode-se chamar de cadeira de rodas. Mas também ela é especial, exige calibrações, cuidados permanentes, uma maravilha da engenharia médica. Que segue acomodada em uma van.

Pois esta mãe mogiana teve de sofrer, esta semana, na sua própria Cidade, o que jamais lhe impuseram nenhum cidadão de outras partes do mundo. Seguindo a rotina de sete anos – idade do pequeno – tomou a van, a cadeira de rodas e o filho e seguiu para uma clínica de fisioterapia na Rua Antonio Candido Vieira. Estacionou à direita, em frente à clínica. Naquele pedaço, o estacionamento é franqueado à esquerda. Nem o motor desligou. Tem a prática que o tempo de exercício lhe garante e foi abrir a porta traseira para pegar a cadeira e nela acomodar o filho. Seria, por certo, menos de cinco minutos; naquele momento contava-se, em menos de uma dezena, os carros que passariam por ali.

Então surgiu a autoridade fardada de azul. “Aí não pode parar”, brandiu ele, insensível aos apelos, ao pedido de ajuda. Sim, em Mogi das Cruzes nenhuma das clínicas que atendem deficientes têm acesso facilitado, o que seria prova de civilidade. Nada foi capaz de lembrar à autoridade fardada de azul que seu compromisso profissional é atender aos que lhes pagam o salário, a vestimenta, a viatura, lhe pagarão a aposentadoria. Oferecer-lhes ajuda seria apenas uma demonstração primária de civilidade.

E pela segunda vez esta mãe mogiana chorou. A primeira foi quando a sua própria mãe morreu, há três anos.

CARTA A UM AMIGO
Olímpico perde Chicória.

Meu caro Zé

Já que o estupro é inevitável, relaxa e aproveita”. Mal eu havia atendido ao telefone em minha mesa no Estadão e a voz inconfundível do diretor de Redação surgiu com a enigmática frase. Era uma noite normal de terça-feira, em outubro de 1985. “Fale comigo quando fechar”. Faltava hora e meia para o dead line (como nós chamamos, em jargão jornalístico, o horário limite para terminar uma edição). Foram 90 minutos difíceis aqueles. Afinal, o que o chefe queria comigo?

EM BONN – Na antiga capital de Alemanha dividida, Pelé sorri. Era outubro de 1985.
EM BONN – Na antiga capital de Alemanha dividida, Pelé sorri. Era outubro de 1985.

Demissão? Não era o caso. Eu vinha de uma série de trabalhos que tinham alcançado alguma repercussão. Pelo menos interna. Tinha coordenado as edições do Plano Cruzado; do rompimento do acordo militar Brasil/Estados Unidos; da tragédia de Vila Socó, em Cubatão e minha equipe, na Editoria Geral, era reconhecida como eficiente. A cobertura do atentado do Rio Centro ganhara o Prêmio Esso de Jornalismo e matérias sobre a Educação na Assembléia Constituinte haviam merecido comentários. Promoção? Também não seria isso. Fazia pouco tempo tinha sido chamado pela direção da empresa para avaliar meus planos e fixamos as metas. Elogio? Isso não existe em Redação e, quando aparece, é melhor desconfiar. Bronca? Também não: estas são sempre públicas. “Já que o estupro é inevitável, relaxa e aproveita”. O recado martelava como se minha cabeça fosse uma bigorna.

Às 22h30 desceu a última legenda. Coisa para um foto de acidente de trânsito. Atravessei a Redação e entrei na sala do diretor. Quatro por quatro metros; uma televisão sempre ligada; papéis e mais papéis sobre uma mesa em permanente desalinho. O ventilador oscilando inutilmente (o ar condicionado funciona). Ele falava amenidades ao telefone. E a minha cabeça, ainda uma bigorna. “Já que o estupro é inevitável, relaxa e aproveita”.

Tudo bem”, perguntou-me o diretor. Tinha, a esse tempo, seus 45 anos; estava no cargo há mais de cinco em meio a uma carreira de 20 anos na empresa. Éramos amigos; tivemos nossas rusgas, mas já fazia tempo celebráramos uma linha de entendimento. “Tudo bem”, respondi.

Você pega uma vôo amanhã para a Alemanha, tem uma entrevista marcada com Helmut Kohl na sexta-feira. Volta na sexta mesmo e nos traz a matéria para a edição de domingo.” Isso é o que se pode chamar, efetivamente, de bate e volta. Todos conhecem a rotina dos sacoleiros que viajam uma noite inteira de ônibus para Foz do Iguaçu; passam o dia comprando badulaques no Paraguai e voltam na noite seguinte. Mas ir para Frankfurt na quarta à noite, chegando quinta à tarde; apanhar uma conexão para Colônia; dali um carro para Bonn. Dormir, acordar sexta para ir à Chancelaria alemã; voltar de carro para Colônia; pegar a conexão para Frankfurt e o avião para São Paulo! “Tudo bem”, respondi.

A esse tempo aceleravam-se as conversações visando à reintegração alemã, que conduziria em seguida à derrubada do Muro de Berlim. O encontro com o chanceler Helmut Kohl seria sobre isso.

No dia seguinte, 20 horas, eu estava no aeroporto de Guarulhos. Passagem de classe econômica em linha da Varig. Então, o que ameaçava concretizar o estupro anunciado, começou a se transformar, por uma incrível sucessão de coincidências, numa alegre maratona.

Na sala de embarque algum conhecido apresentou-me você – José de Oliveira, diretor da Varig. Quando embarcamos, você me levou para a classe executiva. Menos mal. Avião taxiando, cumprimento um outro conhecido, repórter de Esportes. Ele acompanhava Pelé, acomodado com o irmão Zoca na primeira classe. “Para onde vai Pelé?” Ele tinha compromissos na Alemanha, como embaixador do Turismo brasileiro. E a agenda incluía audiência com Helmut Kohl, em Bonn. Depois, seguiria para Paris, onde gravaria comerciais para a loteria esportiva da França.

Chegamos a Frankfurt iniciada a tarde de quinta-feira. No trajeto da ala internacional para o setor doméstico, as primeiras surpresas. Mais de 10 anos depois de parar de jogar, Pelé continuava assediado por fãs em busca de autógrafos. Sem que houvesse qualquer anúncio de sua chegada. Crianças que por certo não o viram jogar, estendiam a mão. Pelé tirava do bolso do paletó bem talhado um cartão com foto colorida e lascava autógrafos e mais autógrafos. A foto era expressiva: mostrava-o com a camisa 10, a amarela das três estrelas. O suor desenhava um enorme coração em seu peito.

Tínhamos a mesma conexão para Colônia. Melhor ainda: a audiência de Pelé e do pessoal da Embratur na Chancelaria coincidia com meu horário. Fizemos uma comitiva brasileira. À qual se integrou, ainda em Frankfurt, uma alemã dos escritórios da Varig no país. Não me lembro de seu nome; mas no grupo ela ficou conhecida por “Chicória”. Deveria ser algo parecido. Bonita para os padrões locais; public relation competente; estava sempre disposta a desempenhar os papéis de guia turístico; tradutora ou, simplesmente, guest.

De pronto meu amigo jornalista esportivo se interessou pela moça. E juntos seguiram no vôo para Colônia; foram no mesmo carro para Bonn; hospedaram-se no mesmo andar – em quartos separados – e, na noite dessa quinta-feira, chegaram juntos à residência do embaixador brasileiro para um coquetel.

Como sempre, as recepções diplomáticas têm tempo para começar. Sobretudo para terminar. Às 21 horas, todos se despediram. Meu amigo e “Chicória” já estavam no carro, uma perua van, que nos levaria para uma cervejaria junto à Catedral de Colônia, igreja monumental construída antes da descoberta do Brasil e ainda hoje com as marcas dos bombardeios da guerra dos anos 40. Colônia e Bonn são cidades muito próximas. Bonn é exclusivamente um centro administrativo e Colônia uma cidade maior, mais interessante, de uma grande universidade e animadas cervejarias.

Eu estava fechando a porta lateral da van quando alguém chegou rápido e impediu. Era Pelé. Estendeu o braço para “Chicória” e disse: “Vamos dançar”. Ela foi. Meu amigo jornalista esportivo acompanhou-nos, bicudo, à cervejaria. A partir dali, e por todo o resto do tempo em que estivemos juntos, ele ficou conhecido como “Olímpico”, para quem “o importante não é vencer; o importante é competir”.

No dia seguinte, na Chancelaria, em meio à audiência de Pelé e minha entrevista, da qual participaram jornalistas de outros países, “Olímpico” esteve sempre calado. Mesmo às 16 horas dessa sexta-feira, quando já estávamos no aeroporto de Colônia esperando a conexão para Frankfurt. Conexão que não apareceu, por causa do mau tempo. Fomos de carro para Frankfurt. A tempo de eu pegar o avião de volta para o Brasil e eles seguirem para a França. Só você, José foi para outro canto. Seguiu direto para Tóquio. Antes, cuidou de me acomodar na classe executiva. Obrigado Zé.

Grande abraço do

Chico

FLAGRANTE DO SÉCULO XX
flagrante
SUA EXCIA. O LEITOR – O que seria do jornalista e, consequentemente do jornal, se não houvesse a atenção de seus leitores? A isto costumo chamar de ‘salário satisfação’. Pois foi o que me ofereceu, esta semana, a leitora Rosa Isabel. Teve ela a gentileza de um telefonema para corrigir legenda da foto estampada na semana passada, relembrando a “Noite do Estampado”, de 19 de novembro de 1966. Ao contrário do registrado, na verdade é Rosa Isabel a bonita moça, segunda da direita para a esquerda (ao centro no corte de hoje).

QUEM É

MAGISTRADO – Nelson Pinheiro Franco foi o primeiro mogiano a assumir a presidência do Tribunal de Justiça de São Paulo, entre 1985 e 1986. Antes de chegar ao TJ, como desembargador, judicou por várias comarcas paulistas. Tinha especial predileção pelo estudo da genealogia e são antológicas as crônicas que publicou neste jornal. Morreu em novembro de 2001, tinha 84 anos.
MAGISTRADO – Nelson Pinheiro Franco foi o primeiro mogiano a assumir a presidência do Tribunal de Justiça de São Paulo, entre 1985 e 1986. Antes de chegar ao TJ, como desembargador, judicou por várias comarcas paulistas. Tinha especial predileção pelo estudo da genealogia e são antológicas as crônicas que publicou neste jornal. Morreu em novembro de 2001, tinha 84 anos.

 

O melhor de Mogi

A Rua Capitão Manoel Rudge: é hoje um pedaço da Cidade dedicado aos serviços, ao comércio de alto nível e à boa gastronomia. Ali, empresários com mentalidade do século XXI conseguem manter a crise longe. Ao contrário da Rua José Bonifácio, onde a movimentação vai minguando…, minguan…, min…,….

O pior de Mogi

Muito engraçada a cara de paisagem que faz o governador Geraldo Alckmin em relação à queda de braço entre seu secretário da Saúde, David Uip e o superintendente do Hospital das Clínicas, Antonio José Rodrigues Pereira. Quem? Eu? Como? Onde?

Ser mogiano é….

Ser mogiano é… ter comprado café na pequena loja – durante muito tempo a menor da Cidade – que havia no térreo Edifício Jorge Salomão (o primeiro arranha-céu daqui), esquina da Dr. Deodato com a Senador Dantas. Moído na hora.

Natan Lira

Natan Lira

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