Um momento caipira, urbano e alegre da Cidade

 Cavaleiro acorda na Cidade, a única a contar com a Entrada dos Palmitos, rito que celebra a fartura e lembra antigos moradores da Serra / Foto: Eisner Soares
Cavaleiro acorda na Cidade, a única a contar com a Entrada dos Palmitos, rito que celebra a fartura e lembra antigos moradores da Serra / Foto: Eisner Soares

Os acenos e sorrisos de crianças, jovens, adultos e velhos comungam do prazer do encontro e da convivência entre gerações antigas e novíssimas, num momento caipira e urbano, criado por uma Mogi das Cruzes resistente ao passar do tempo. A Entrada dos Palmitos foi mais curta, teve menos público e menos festeiros antigos, mais cavaleiros e charretes, menos grupos de congada – alguns mestres estão adoentados, outros faltaram, mas mandaram os filhos no lugar. Percepções se dividem, mas transcende o espírito de comunhão da Festa do Divino Espírito Santo.

Reside na devoção, na força do catolicismo e no cultivo de tradições antigas a manutenção do cortejo matinal realizado sempre no penúltimo dia de festejos do Divino. Historiadores registram a Entrada dos Palmitos, apenas em Mogi das Cruzes. Há 27 anos, ela começou a ser feita para lembrar um costume antigo, a chegada dos moradores da região da Serra do Divino à cidade, no lombo de burros ou cavalos, com os cestos de produtos cultivados por eles e seus pertences, no período que antecedia a celebração de Pentecostes, que acontece hoje. Alguns mogianos que lá moravam mantinham casas na região central e vinham para ficar durante uma semana ou mais, para participar das novenas e celebrações católicas.

O professor Josemir Ferraz de Campos, que cuida hoje do agrupamento de carros de bois, vindos de cidades como Igaratá, Salesópolis e Santa Branca, estava emocionado, quando passou pela Rua Dr. Ricardo Vilela. “A Entrada dos Palmitos é sempre uma vitória porque mantém as nossas raízes, a fé do povo”, disse. Cartazes colocados nas laterais dos carros puxados por bois homenagearam devotos falecidos.

O grosso do cortejo é formado pelo povo, dividido em grupos. Autoridades à frente, seguidas de devotos, estudantes, idosos, autoridades, grupos folclóricos e a Lira São José Operário, carros de boi, charretes e cavaleiros. A maior parte com algum colorido vermelho em lenços, bandeiras. A cor prevalece salpicada pelo amarelo, azul e branco da indumentária dos grupos dançantes de Congada, Moçambique e Marujada. Pandeiros e instrumentos de percussão criam o batuque encantado, herança negra que ritma o coração durante a passagem.

“É tão lindo de ver”, falou Terezinha de Jesus da Silva Melo, de 85 anos, moradora da Rua Ricardo Vilela, que recebe familiares durante a Entrada dos Palmitos. “Não posso perder uma. É a minha história”.

De Guarulhos, José Vieira Melo e Edileuza, em uma charrete, participaram pela primeira vez. Ele possui um rancho na cidade vizinha e maior ainda do que a Mogi das Cruzes, hoje com seus mais de 430 mil habitantes. Os dois prometeram voltar. “É muito organizada a festa, e de devoção”, opinou ele. A Entrada dos Palmitos conserva esse viés da vida caipira tocada dentro da cidade grande. Celulares registram , filmam, divulgam o momento.

No miolo da Entrada dos Palmitos, histórias pessoais e coletivas em curso. Uma delas: a de Eduarda Afonso, rainha da Congada de Santa Ifigênia de Mogi das Cruzes. Ela levou o estandarte que, em 2015, foi conduzido pela irmã, Shawanda Nicolle, falecida no início deste ano, com apenas 16 anos. As duas são filhas da mestre Gislaine que, ainda em luto, foi uma das ausências no cortejo.

Nas calçadas, visitantes e mogianos de nascimento ou não. Como o grupo de idosos dos asilos São Vicente de Paulo e da Estância Renascer Manuel e Maria. Todos os anos, os responsáveis pelas casas levam os internos para ver a Entrada dos Palmitos. Estava entre eles, ontem, Alberto de Carvalho, de 77 anos. Ele chegou a Mogi em 1947, com os pais, que compraram o Hotel Familiar, na Praça do Jardim, a Oswaldo Cruz. Das festas do Divino antigas tem poucas lembranças, mas recorda-se de algo parecido, um desfile em comemoração ao aniversário da Cidade, quando um acidente com um bimotor assustou a população. “Foi um susto e quase virou tragédia porque o piloto conseguiu levar o avião, para o brejo no Mogilar, onde caiu”. É dia de saudade, nostalgia”.
A Entrada dos Palmitos é um momento alegre da Cidade. (Eliane José)

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