Trocaremos seis por meia dúzia?

Merece ser melhor debatida a crise administrativa que afeta três entidades de acolhimento a crianças e adolescentes, prestes a encerrarem uma história de atuação numa das mais nobres causas sociais.

Primeiro porque se trata de três abrigos que respondem pela metade das 120 vagas disponibilizadas ao poder judiciário para o atendimento a cidadãos em situação de violência ou vulnerabilidade social. Ou seja, o caso está longe de se configurar como uma questão pontual. Longe mesmo: uma quarta entidade, noticia este jornal, enfrenta graves problemas financeiros e também acena com o fim das atividades.

Longe de defender uma atuação paternalista diante desse difícil momento, chamamos a atenção para a maneira como essa crise está sendo debelada. Substituir essas entidades, quando elas mais precisam, não seria uma falta de reconhecimento a quem auxiliou na manutenção da rede de acolhimento às crianças até agora, arcando com as responsabilidades legais e éticas de cuidar, orientar e dar a chance de outro futuro para as crianças confiadas a esses gestores?

Naturalmente, a situação seria outra se houvessem denúncias (e comprovação) de algum desvio de conduta que pudesse desmerecer a história de casas como a Associação São Lourenço, no Distrito de Taiaçupela, que irá completar 22 anos de fundação em janeiro próximo.

Não parece certo realizar um novo chamamento público, antes de se zerar todas as possibilidades de auxílio a essas entidades que possuem experiência e o conhecimento do acolhimento de crianças que, não raro, chegam a esses endereços, algumas horas depois de nascerem. É como trocar o certo pelo que ainda irá maturar para dar certo.

Momentos de crise pedem cautela e diálogo, diante de soluções apressadas. Por isso, a proposta de uma reflexão sobre como a Cidade irá se portar diante do pedido desse episódio.

A recessão econômica e as mudanças trabalhistas pesaram fortemente nas finanças dos abrigos, como aconteceu dentro da casa de todos os mogianos. Mas, há diferenças conhecidas pelos técnicos e leigos que visitam esses endereços. Na casa de acolhimento, o número de integrantes da “família” é maior e os gastos com comida, alimentação e transportes, idem, porque o regramento trabalhista e sanitário tem um custo elevado.

Sem os reajustes dos subsídios públicos e com menos voluntários e recursos de doações, não apenas as entidades que estão prestes a fechar, mas todas as demais que têm socorrido a administração direta, enfrentam as mesmas dificuldades.
E não será surpresa, se creches subsidiadas vierem a ser notícia pelos mesmos motivos.

E o que faremos, trocaremos seis por meia dúzia?

Natan Lira

Natan Lira

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