Teimosia - O Diário - Mogi das Cruzes , Suzano e Região do Alto Tiete
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           EDUARDO MOREIRA

Teimosia

Eduardo Moreira

Minhas lembranças de vida são muito antigas, não só porque, hoje, sou mesmo antigo, como porque, também, minha memória, ao menos pelo que outras pessoas revelam sobre si mesmas, é mais remota e mais clara. Tendo eu nascido no curso da 1ª Grande Guerra, lembro-me de episódios passados antes dela terminar e muito perfeitamente do dia em que seu final foi anunciado e de acontecimentos ocorridos nos anos imediatamente posteriores ao término da horrível conflagração.

Estão entre essas recordações, as escolas que frequentei – e, digo escolas, porque cada ano do curso primário, hoje, fundamental, eu fiz num Grupo Escolar diferente –, os brinquedos com que me diverti, o tipo de alimentação mais comum naqueles anos, as roupas, os meios de transporte. E é neste último que, neste escrito, quero me fixar.

A condução usual das classes pobre e média era o transporte coletivo, bonde e ônibus. Raramente as pessoas, mesmo as da classe média, utilizavam-se do táxi que, àquele tempo eram chamados de carro de aluguel ou carro de praça e seu condutor era o chofer (aportuguesamento da designação francesa) de praça.

Não sei se os choferes de praça tinham, como hoje os taxistas têm, algum incentivo fiscal, duvido muito que o tivessem, mas o serviço que prestavam era excelente, eram pessoas educadas, as posturas públicas os compeliam a uma indumentária quase que solene, obrigados que estavam a trajar gravata e ter na cabeça um quepe, à moda dos militares. Eram, talvez por tudo isso, às vezes um tanto cheios de si e os seus carros estavam sempre bem cuidados, limpos, com a metalagem reluzente, o que os fazia muito ciumentos dos veículos, não admitindo que as pessoas – até mesmo os usuários, seus fregueses –, pusessem as mãos nem mesmo para abrir as portas, coisa de que eles mesmos, os choferes, cuidavam de fazer.

Mas, estamos a falar dos anos 1940 e, uma vez transposta essa década (e isso se passa na Capital, onde eu nasci e morava), os anos 1950 vão dar início a grandes modificações por influência do fim da guerra. Mantenho-me em considerações sobre esse mesmo meio de transporte, aí já denominado táxi, embora a palavra taxista para designar o condutor ou chofer ou até motorista de praça, ainda demorasse para aparecer.

A população da cidade crescia rapidamente. As conduções coletivas, ônibus e bondes viviam apinhados. E o táxi continuava caro. Seus proprietários, isto é, os motoristas de praça começaram a prestar um tipo de serviço consistente em levar mais de um freguês que se destinasse, de manhã a ir do bairro ao centro e à tarde o inverso, fazendo surgir o que se convencionou chamar de “lotação” e, assim, o preço da corrida era rateado entre os fregueses que iam sendo pegos ao longo do caminho, o que foi regulamentado pela diretoria do serviço de trânsito e transporte.

Um pouco da ciumeira antiga que os motoristas de praça tinham com relação ao seu patrimônio, isto é, o carro, continuou e eu me lembro bem de alguns que, através de avisos bem delicados pediam para que se não fumasse no trajeto ou para que não se batessem as portas com força, entre muitos outros.

No entanto, e para esfriar as investidas de palpiteiros, havia uma frase que alguns ostentavam por escrito e que pedia aos passageiros, o seguinte: “Não dê palpite. Sei errar sozinho!”.

Ao reparar, outro dia, em um discurso de dona Dilma, lembrei-me dessa frase, ante sua teimosia.



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