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‘Sou mais mogiano que mineiro’

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Elton Gomes da Costa conta histórias vividas no Bradesco, onde atua há 42 anos, e em Mogi das Cruzes / Foto: Eisner Soares

Elton Gomes da Costa conta histórias vividas no Bradesco, onde atua há 42 anos, e em Mogi das Cruzes / Foto: Eisner Soares

CARLA OLIVO

Mineiro de Salinas e mogiano de coração. Este é Elton Gomes da Costa, 63 anos – 43 deles dedicados ao trabalho em agências bancárias -, que com uma legião de amigos formada de 1988 para cá em Mogi das Cruzes, adotada como Cidade natal, traz em mente o projeto de escrever um livro para contar as histórias aqui vividas, mas em forma de metáforas, para que apenas seus personagens possam decrifá-las. De infância humilde em terras mineiras ao lado dos pais, o funcionário público Antônio Gomes dos Santos e a merendeira Antônia Gomes da Costa, conhecida como Pinheza, o mais velho dos sete filhos do casal ­­- os outros são Éder, Elmo, Maria Honorinda, Elisa Célia, Manoel Messias e João Batista -, conheceu o trabalho cedo. Aos 9 anos, já engraxava sapatos, aos 12 vendia roupas na feira com a ajuda dos irmãos e com 16 anos era escriturário na Prefeitura Municipal de Salinas. Foi aos 20 que, após a conclusão do curso ginasial, viajou com mais dois amigos para a Capital Paulista em busca de emprego e para dar continuidade aos estudos, já com objetivo de cursar uma universidade. A vida na grande metrópole levou os dois companheiros a desistirem da meta, mas Elton persistiu. Morou em pensões, concluiu o colegial no curso supletivo e iniciou como escriturário no antigo Banco Econômico, logo passando a caixa, subchefe e gerente administrativo. Formou-se em Administração de Empresas na Pontifícia Universidade Católica (PUC) e em Letras pelas Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU), casou-se com a artista plástica Sandra de Paula Pinheiro Costa, que conheceu no trabalho, foi transferido para agências de Santos e Peruíbe até que, em 1988, veio trabalhar em Mogi. Adepto de esportes, principalmente do futebol, torcedor do Cruzeiro, escritor de poesias e integrante de confrarias de amigos na Cidade, ele traz na veia o dom da família Gomes da Costa para tocar violão e cantar. Na entrevista a O Diário, o gerente-geral do Bradesco Prime em Mogi compartilha suas histórias com os leitores:

Quais as lembranças da infância em Minas Gerais?
Tive uma infância muito feliz, mas em família humilde. Morava em rua de terra e jogava futebol com os vizinhos. Pulava da ponte e tomava banho no rio e na chuva. Meu pai, como funcionário público da Prefeitura Municipal de Salinas, nas poucas vezes que saiu de lá, coincidentemente veio para Mogi das Cruzes fazer um curso sobre máquinas utilizadas em estradas, na antiga Huber-Warco. Minha mãe era merendeira.Fiz o primário no Grupo Escolar João Porfírio, sempre fui bom aluno, gostava mais de Português, mas tinha facilidade em Matemática. Após o curso preparatório para o Exame de Admissão ao Ginásio do Estado, que era concorrido como os vestibulares, ingressei no Instituto Nossa Senhora Aparecida, que era dirigido por freiras, muito organizado e com uma disciplina bem rígida, o que foi importante na minha formação.

Qual foi o primeiro emprego?
Aos 9 anos, eu engraxava sapatos. Com 12, buscava roupas nas lojas para vender na feira com meus irmãos e aos 16 comecei como escriturário na Prefeitura de Salinas. Quando tinha 20 anos, vim para São Paulo com mais dois amigos para estudar o colegial e trabalhar. A vida na grande metrópole assusta, os dois desistiram e voltaram para Minas. Eu continuei morando em pensões na Capital, fiz o colegial no curso supletivo e como era conhecido por jogar futebol em times de várzea de Salinas, uma pessoa de lá que estava em São Paulo foi me visitar na pensão e falou que o antigo Banco Econômico estava fazendo testes para contratações. Fui aprovado e comecei como escriturário na agência da Rua João Brícola, em frente ao prédio do também antigo Banespa. Lá, fui caixa, subchefe e gerente administrativo. Fiz os cursos superiores de Administração de Empresas e Letras e, após o casamento com a Sandra, que é de Fortaleza (CE) e também trabalhava no banco em São Paulo, fui transferido para Santos, depois para Peruíbe e, em 1988, vim para Mogi das Cruzes.

Qual sua primeira impressão da Cidade?
Gostei muito de Mogi que, na época, deveria ter cerca de 200 mil habitantes, era bem tranquila, acolhedora e com localização estratégica, perto da Capital, do litoral e de tudo. Aqui logo fiz amizades que preservo até hoje. Como estou há muito tempo no banco, conheci muita gente e vários clientes se tornaram verdadeiros amigos. Os mogianos não puderam escolher porque já nasceram aqui, mas eu escolhi Mogi como minha terra natal e hoje posso dizer que sou muito mais mogiano do que mineiro.

Como foi a mudança de Banco Econômico para Bradesco?
Cheguei em 1988 e a agência do Banco Econômico ficava na Avenida (Voluntário Fernando Pinheiro Franco), ao lado de onde hoje está a Caixa Econômica Federal (CEF) e atualmente funciona a Toyota. Em1995, as agências do Banco Econômico ficaram fechadas durante nove meses em todo o País e foi um período muito difícil, uma das piores fases de superação que tive que enfrentar na vida, vendo os clientes também enfrentado dificuldades porque não podiam retirar o dinheiro deles. O Banco Excell comprou o Econômico e ficou dois anos, depois veio o BBV e, em 2003, o Bradesco assumiu o banco e está até hoje. Em 2003, ainda como BBV, inauguramos um posto na UMC (Universidade de Mogi das Cruzes), que funcionou 20 anos lá, sempre com bom relacionamento como o padre Melo (Manoel Bezerra de Melo, chanceler da UMC), já que a Universidade foi financiada pelo Banco Econômico, e todo o grupo ainda é nosso cliente no Bradesco.

Qual sua rotina no banco?
Sou gerente há 14 anos, com 62% de share de mercado no segmento de alta renda. Gosto de trabalhar, então chego logo pela manhã e fico até o início da noite. Sinto uma grande identidade com o banco e gostaria de ter iniciado minha carreira no Bradesco pela forma que ele trabalha com as pessoas, desde sua fundação, em 1943, na cidade de Marília. Em Mogi, a agência foi inaugurada em 1962. Hoje são 60 milhões de clientes no País e aqui temos 50 mil no varejo e 4 mil no Prime, onde trabalho. Tive oportunidade de fazer vários cursos pelo banco na FGV (Fundação Getúlio Vargas) e na USP (Universidade de São Paulo). A Fundação Bradesco, criada em 1955, numa iniciativa visionária quando nem se pensava em responsabilidade social, serve de exemplo para muitas empresas. São 120 mil alunos em todo o País. E a disciplina no banco também é muita rígida, por isso fiz questão que meus dois filhos passassem por lá. O mais velho, Bruno, é gerente do segmento empresa do Bradesco, e o Rafael, trabalhou cinco anos no banco e hoje está estudando na Nova Zelândia.

Quais histórias ficaram marcadas nestes 42 anos de trabalho em agências bancárias?
Tem muitas e um dia ainda escrevo um livro com minhas histórias vividas no banco e com os amigos nas confrarias das quais faço parte na Cidade, mas vou usar metáforas para que apenas os personagens possam decrifar o que estou revelando. Do banco são muitas, principalmente porque a parte financeira mexe com as pessoas e nós precisamos atuar como mediadores, psicólogos, confidentes, já que muitos clientes nos procuram em busca de soluções para seus problemas. Também é preciso apaziguar, principalmente os mais jovens, que são muito imediatistas. A geração Y não sabe esperar e, infelizmente, muitas vezes nem respeitar. Já os mais idosos são tranquilos. Há ainda aquelas situações embaraçosas, como quando morre algum cliente e, mesmo enquanto o corpo ainda está sendo velado, a família vem ao banco querendo informações sobre o que a pessoa tinha. Alguns já querem sacar sua parte. Mas isso entra em inventário e apenas o juiz pode decidir, por isso nós orientamos a buscarem os caminhos legais. Para lidar com todas estas situações, conto com uma boa equipe, tenho o Márcio Biaggio, que está comigo há 28 anos, e o Marcelo da Silva, que trabalha no banco há 29, e me ajudam muito. São oito gerentes e três assistentes.



O que o senhor gosta de fazer quando não está trabalhando?
Sempre gostei muito de esportes e comecei a jogar futebol aos 8 anos, em times de várzea de Salinas, sempre como centroavante. Já disputei vários campeonatos, inclusive no período em que morei em São Paulo, e depois pelo banco e Sindicato dos Bancários, no qual fomos quatro vezes campeão e também atuei como técnico. Hoje jogo bola uma vez por semana com os amigos da AABB (Associação Atlética Banco do Brasil). Torço pelo Cruzeiro, já fui assistir a jogos em estádios, mas hoje prefiro vê-los na TV porque a violência está demais. Também toco violão e canto, assim como todos na minha família. Mas sou mais introspectivo e faço isso só em casa. Já meus irmãos compõem, participam de festivais, tocam na noite e um deles tem uma escola de música chamada El-Ton, em minha homenagem. Formamos uma família regada ao amor e à harmonia.Também como distração, gosto de corrida e três a quatro vezes por semana, corro 6 km na Praça do Oito, perto da minha casa, na Chácara Jafet, antes de ir para o banco.

O senhor tem envolvimento em outras atividades em Mogi?
O esporte, o encontro com os amigos nas confrarias da AABB, Santa Fé e do Juca e a música me ajudam a manter o equilíbrio, então saio e volto todos os dias para casa sorrindo. O grupo da pescaria é a Confraria do Juca, que há cinco anos perdeu um de seus principais integrantes, o professor Cursino, que era professor de Engenharia da UMC, formado pela USP e pelo ITA e presidente do Sindicato dos Professores. Este grupo, formado por 20 pessoas, a maioria de Mogi, sai para pescar e passa seis dias em um barco hotel, no Pantanal.

Qual sua avaliação sobre o esporte da Cidade?
Vou assistir aos jogos do basquete e também do União, mas acho que o futebol precisa de mais incentivo porque há muitas cidades menores do que Mogi com times disputando a primeira divisão e o nosso não está nem na segunda. Além disso, faz muita falta um time de vôlei como havia na época em que o Miguel Nagib era jogador e que representava a Cidade nos campeonatos.

Quando chegou aqui, o senhor imaginava que Mogi cresceria tanto?
Mogi sempre teve potencial para crescer e, graças a empreendedores visionários, como o próprio Tote (Tirreno Da San Biagio, fundador de O Diário), Padre Melo (Manoel Bezerra de Melo), Henrique Borenstein, entre outros, chegou onde está. Nos últimos anos, o salto de desenvolvimento foi enorme e isso atraiu muita gente de fora, que ainda trabalha na Capital, mas escolheu Mogi para morar porque aqui ainda há qualidade de vida, apesar de a Cidade já ter se tornado uma metrópole e estar entre as grandes do País. O Bertaiolli (Marco Bertaiolli, ex-prefeito) fez uma boa administração e o Marcus (Melo, atual prefeito) tem um grande desafio pela frente.

E quando o País vai sair da crise?
Passei por outras crises financeiras, mas de 40 anos para cá, esta é a pior. São 12 milhões de desempregados no País, muitas pessoas fecharam os negócios e várias deixaram de fazer o que gostavam porque perderam a renda ou o padrão de vida caiu. Agora, começamos a viver um momento em que a queda está estagnada e os números mostram que a inflação de janeiro foi a menor dos últimos 20 anos. A retomada do crescimento vai depender da aprovação das reformas Fiscal, Política e da Previdência pelo Congresso. A partir daí haverá oportunidades de melhorias. Há sinais disso, mas ainda é cedo. A equipe econômica do Bradesco prevê algum crescimento a partir do segundo semestre do ano. A crise afetou a todos e o papel do banco foi ser flexível, entender e tentar ajudar os clientes, o que é crucial nestes momentos. O confisco da poupança pelo Collor (Fernando Collor de Mello, ex-presidente), foi uma indecência, porque ele tirou o direito das pessoas sacarem o dinheiro delas. No governo de transição, com o Itamar Franco, foi lançado o Plano Real, o melhor para o País. O Fernando Henrique Cardoso consolidou o mercado financeiro no País e dos 200 bancos da época ficaram quatro grandes da rede privada e o Banco do Brasil. Já o Lula (Luís Inácio Lula da Silva, ex-presidente) poderia ter saído para a História do Brasil como um grande estadista se o ideal não fosse o poder. Agora, com a saída da Dilma (Rousseff, ex-presidente), precisa haver uma expectativa de melhora.

Perfil

Nome: Elton Gomes da Costa
Idade: 63 anos
Nascimento: Salinas (MG)
Estado civil: casado há 34 anos com Sandra de Paula Pinheiro Costa
Filhos: Bruno e Raphael
Formação: Administração de Empresas (PUC) e Letras (FMU)
Trabalho: gerente-geral do Bradesco Prime em Mogi

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