Sérsi Bardari, um entusiasta da Comunicação

Sérsi Barbari é professor universitário da UMC. (Foto: Edson Martins)
Sérsi Barbari é professor universitário da UMC. (Foto: Edson Martins)

CARLA OLIVO
Mogi das Cruzes faz parte da vida do paulistano Sérsi Bardari, 62 anos, desde os tempos de juventude, quando ele e a família trocavam o cenário urbano do Bom Retiro, na Capital Paulista, pelo sítio do pai, o administrador de empresa Waldemar Sérsi Manoel Bardari, para passar os finais de semana e férias no Distrito de Sabaúna. Após o primário e o ginásio no Externato Santo Eduardo, no bairro onde morava, em São Paulo, o descendente de italianos e portugueses fez o curso técnico em Contabilidade no Colégio Duarte de Barros, no Tatuapé, mas desde a adolescência já tinha aptidão para se comunicar bem por meio da escrita. Contrariando o pai, que queria que o filho seguisse carreira na área de Administração de Empresas, ele se formou em Jornalismo na Faculdade Cásper Líbero e morou três anos em Salvador (BA) para trabalhar como redator no jornal A Tarde. De volta a São Paulo, atuou no Departamento de Marketing do antigo Unibanco – hoje Itaú -, na agência de comunicação interna do Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac) e como freelancer nas áreas de assessoria de imprensa e redação. Foi em 1991, após o então presidente da República Fernando Collor de Mello confiscar a poupança dos brasileiros, que Sérsi decidiu se mudar para o sítio da família no distrito mogiano. Ali passou quatro anos escrevendo literatura até que, em 1994, começou a dar aulas nas universidades Braz Cubas – onde ficou até 1997 -, e de Mogi das Cruzes (UMC), na qual ainda leciona e há um ano é editor-executivo da Revista Científica UMC. Recentemente também atuou na Universidade Anhembi Morumbi, na Capital. Na entrevista a O Diário, Sérsi – autor de 11 livros – fala da formação e do papel do jornalista no passado e hoje e das mudanças trazidas pela tecnologia aos profissionais da área e às empresas de comunicação, além de contar histórias vividas na Cidade.

O senhor nasceu em São Paulo e lá viveu até a vida adulta. Por que a vinda para Mogi das Cruzes?
Nasci na Mooca, fui criado no Bom Retiro, uma área urbana, perto da Estação da Luz e do Palácio do Governo, mas conhecia Mogi porque meu pai tinha sítio em Sabaúna. Antes, ainda na infância, vínhamos para Suzano, onde meus avós paternos, Francesco e Giovanna Bardari, tinham sítio. Ali eu passava as férias e finais de semana, lendo os livros do Monteiro Lobato. Em 1973, meu pai (Waldemar Sersi Manoel Bardari) comprou o sítio em Sabaúna e eu vinha para cá com ele, minha mãe (Alice de Aguiar Bardari) e meus irmãos, Selma e Sérgio, passando pelo Centro de Mogi para comprar mantimentos e querosene para o lampião, porque não havia energia elétrica no sítio na década de 70. Em 1991, quando tinha uma empresa de prestação de serviços como redator e assessor de comunicação em São Paulo, vim morar no sítio, depois que o Collor (Fernando Collor de Melo, ex-presidente da República) confiscou a poupança e da noite para o dia a economia pisou no freio. Repensei a vida e mudei para cá.

Onde o senhor trabalhou na Cidade?
Fiquei quatro anos aqui, sem vínculo empregatício, mas ia para São Paulo dar aulas em uma escola particular da Lapa e escrevia literatura no sítio. Aqui, fazia meus textos e os primeiros livros na máquina Olivetti Lettera 22, depois comprei o primeiro PC, mas ainda não havia Internet, apenas videotexto. Fazia trabalhos como freelancer e os enviava por fax, mas a qualquer chuva o telefone parava de funcionar. Foi em 1996 que veio a internet, ainda discada e cobrada como ligação telefônica. Antes disso, em 1994, comecei a dar aulas na UMC e UBC, nas áreas de Jornalismo e de Publicidade e Propaganda. Na Braz Cubas fiquei até 1997 e na UMC estou até hoje, passei por vários cursos, sempre na área de Ciências da Linguagem, na produção de texto adaptado para diferentes mídias.

Quando surgiu a vocação para o jornalismo?
Desde o Ensino Fundamental, os professores já me diziam que eu me comunicava bem pela escrita e, desde a infância, gostava muito de ler. Como meu pai era administrador em uma empresa de tecelagem, queria que eu seguisse carreira nesta área, mas percebi que não tinha aptidão para isso e fiz Jornalismo.

Onde foi o primeiro emprego?
Foi como redator, no jornal A Tarde, em Salvador (BA), onde morei de 1977 a 1980. O jornal A Tarde era de direita e voltado aos interesses capitalistas e dos empresários e o Jornal da Bahia, seguia a linha de esquerda e vira e mexe passava por censura nos tempos de Ditadura. Estavam sendo desativados os últimos linotipos, passando para fotocomposição, mas ainda era impressão off-site, com chapas, as rotativas e estrutura de distribuição gigantesca. O jornal era diagramado em grandes folhas quadriculadas, que passavam pela área comercial para reserva de anúncios. Os redatores faziam os textos em laudas, na máquina de escrever mecânica. Depois, tudo ia para a composição, tinha o past-up, a chapa e a impressão off-site. Havia um setor só de revisão e era um processo longo, mas no prazo de um dia o jornal estava pronto.

E a volta para São Paulo?
Em 1980, vim para o Departamento de Marketing do antigo Unibanco, hoje Itaú, onde já usava a máquina de escrever elétrica e fiquei até 1984. De lá, fui para a agência de comunicação interna do Senac trabalhar com textos institucionais e mala direta. Surgiram os primeiros computadores, com processadores de texto, mas ainda não havia o Windows, era só o MS-DOS. Fui acompanhando a evolução tecnológica e também vi a UMC passar por esse processo porque a redação de jornalismo tinha máquinas mecânicas, depois vieram os primeiros computadores e, em 1998, participei da criação do primeiro site da UMC, como redator de conteúdo. Depois foi feito o Centro Cultural, com estúdios de rádio e TV.

Qual a diferença na formação do jornalista no passado e hoje?
A diferença é que antes da Internet se popularizar, trabalhávamos mais com bibliografia, capítulos de livros e discutíamos o papel social do jornalismo. Os alunos tinham a ideia de que o jornalismo poderia ser um meio de transformação social. Neste perfil mais idealista, não havia dificuldades de leitura para os estudantes. A parte teórica tinha mais espaço no curso, mas com o tempo, a pragmática, o dia a dia do fazer e a tecnologia ganharam lugar, então o fazer assumiu a dianteira do ensino-aprendizagem. A parte técnica tem maior espaço porque o perfil do aluno exige algo mais prático. O jornalismo não existe para derrubar governo e mudar a cabeça das pessoas, mas sim para se engajar ao sistema e defender interesses de corporações.

Foi nesta época que surgiram novas possibilidades na área de Comunicação?
As assessorias de imprensas surgiram com bastante intensidade, dando mais emprego do que os grandes jornais impressos, com salários mais altos dos que nas redações. O novo mercado de jornalismo corporativo se abriu no ano 2000, paralelamente com a facilidade que a tecnologia trouxe. A impressão passou a ser barateada, a foto começou a viajar pelo espaço cibernético e o uso da cor, a partir de 2001, já não era tão oneroso como antes, com quatro fotolitos para uma página cor. As impressoras a jato de tinta e à laser baratearam isso e os programas de diagramação ficaram mais acessíveis. Então, a escola teve de se adaptar a esta realidade.

Qual o futuro do jornalismo?
Os jornais impressos têm mais possibilidade de fazer a interpretação dos fatos e as pessoas sempre vão gostar de ter algo palpável, de receber o jornal em casa, mas claro que eles se adaptam. Porém, ainda há espaço para reflexão e talvez eles se tornem mais subjetivos e opinativos, porque a objetividade e o factual estão na Internet de forma muito mais ágil. Só não se pode tentar imitar a internet, é preciso uma linguagem mais prazerosa já que quanto mais madura a pessoa fica, mais atração tem pelo papel, porque neste caso nunca acaba a bateria e não depende de sinal. As grandes empresas jornalísticas também foram para o mundo digital e algumas se tornaram provedoras de Internet e oferecem outros serviços. Em termos de qualidade narrativa, quantidade de informação e aprofundamento de cobertura, vivemos uma época muito mais superficial. Hoje, o público busca informação sobre vários assuntos, mas não se aprofunda sobre nenhum deles, a não ser os profissionais de determinadas áreas. O leitor comum, que acompanha o dia a dia da sociedade, quer mais um panorama de tudo o que está acontecendo do que se aprofundar em cada coisa.

O que deve ser tendência nos próximos anos na área de comunicação?
O que surgiu e pode ser a tendência para o público que tem interesse de aprofundamento são os livros-reportagens, que começaram nos anos 60 nos Estados Unidos e aos poucos foram ganhando espaço. No Brasil temos o Fernando Morais, o Caco Barcellos, a Eliane Brum… Na literatura de não ficção, o linear entre o que é literatura e o que é jornalismo é muito tênue. Há a reconstrução da realidade por meio de uma linguagem literária e com liberdade poética.

Hoje, a linguagem tende a ser cada vez mais informal?
Os teóricos dão nome ao fenômeno infotenimento, que mistura informação com entretenimento e surgiu nos portais da internet, onde política, economia, fofocas de celebridades, página policial, tudo se mistura. Então, a linguagem do mundo da cultura e do jornalismo marrom e sensacionalista contamina as matérias que exigiriam linguagem mais formal, até pela concorrência dos portais, já que quanto mais sedutores, leves e rápidos forem a informação e o registro de linguagem, maior audiência, mais assinantes e anunciantes. Além disso, os ensinos Fundamental e Médio desceram ladeira abaixo no Brasil, então, se você coloca um texto mais erudito, as pessoas têm dificuldades.

Qual sua avaliação sobre a não obrigatoriedade do diploma na área de jornalismo?
No primeiro ano em que caiu a exigência do diploma, tivemos redução de matrículas, mas com o tempo, as pessoas perceberam que mesmo o diploma não sendo mais obrigatório, o mercado exige preparo e começaram a voltar. A área de humanidades, conforme a tecnologia foi exigindo que colocássemos no mercado pessoas preparadas para lidar com câmeras de última geração, máquinas digitais e programas de diagramação por computador e de produção gráfica digitais, precisou dar mais tempo a isso do que para História das Civilizações, Sociologia, Filosofia e até mesmo Literatura, que formam o caráter do cidadão. Recentemente, lecionei na Faculdade Anhembi Morumbi e trabalhei a teoria da literatura para alunos de jornalismo. A experimentação da linguagem que encontramos na literatura é celeiro de pesquisa para inovação da narrativa jornalística. Hoje, o aluno também não tem mais aquela capacidade de concentração de antes porque possui o mundo em suas mãos, no celular. Como sempre trabalhei com redação, a disciplina é técnica, com foco no funcionamento da linguagem, estruturas narrativas e discursivas e efeitos de sentidos causados no leitor.

A tecnologia também mudou o trabalho do professor?
O professor trabalha mais do que no passado, porque estamos em contato com o aluno também em casa, seja pelo WhatsApp, grupos, Facebook, email, ele nos encontra onde estivermos. Escrevemos textos e enviamos a eles, discutimos materiais e indicamos sites sobre assuntos discutidos em sala de aula.

Qual a proposta da Revista Científica UMC?
É uma revista semestral multidisciplinar lançada há um ano para divulgar a produção científica das áreas básicas da UMC, que são Saúde e Biológicas, Exatas e Tecnologias, Sociais Aplicadas, Jurídica e Educação, Comunicação e Artes. Hoje, o TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) e a pesquisa são muito valorizados e a UMC percebeu que se produzia conhecimento, mas isso não era divulgado. Agora, temos a revista eletrônica. Tudo é regulamentado pela ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas), pesquisei, fiz curso online e conheci a plataforma Open Journal System, criada no Canadá e bem aceita pela comunidade científica internacional. Vários países compraram a licença e a traduziram para seus idiomas, como fez o MEC (Ministério da Educação), que a disponibilizou às instituições de ensino. Criei a estrutura editorial, o foco e escopo da revista, divulgamos internamente, mas ela começou a receber solicitações de alunos de mestrado e doutorado fora da Região. Temos artigos da USP, Unicamp e das universidades federais do Espírito Santo e do Centro-Oeste. Recebo os materiais, faço a triagem, envio aos avaliadores das áreas que dão o parecer sobre o conteúdo e faço o pente-fino final. A meta é entrar na Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) para qualificar a revista a fim de que se torne referência em divulgação científica. É importante para a valorização do currículo dos alunos, qualificação do conselho editorial e à comunidade.