Sanatório de Santo Ângelo - O Diário - Mogi das Cruzes , Suzano e Região do Alto Tiete
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           CHICO ORNELLAS

Sanatório de Santo Ângelo

Chico Ornellas

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Era uma tristeza; de tal tamanho que, nas manhãs de sábado, os pais não levavam filhos ao Mercado Municipal. Entre as décadas de 1910 e 1920, grupos de até 10 pessoas reuniam-se, nesse período, em um dos cantos externos do mercado. Maltrapilhos, três ou quatro deles seguravam uma vareta de bambu, na extremidade oposta àquela em que amarravam uma latinha qualquer e a estendiam aos passantes. Mendigavam o que fosse capaz de minorar o sofrimento dos lazarentos.

A lepra é uma doença bíblica, cujos primeiros casos remontam ao Egito, três mil anos atrás. Contagiosa, o bacilo transmitido pela saliva ataca 5% das pessoas que têm contato com ele – 95% têm resistência natural – e provoca lesões cutâneas com deformidade física e danos neurológicos. Hoje, o tratamento é feito em ambulatórios com antibióticos. Mas não era assim.

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Entre 1894 e 1962 os pacientes do Mal de Hansen (assim chamado em referência ao norueguês Gerhard Hansen, que descobriu, em 1874, o micro-organismo causador da moléstia) eram segregados em colônias. Das brasileiras, uma das maiores foi construída no distrito de Jundiapeba, em Mogi das Cruzes.

O Sanatório de Santo Ângelo, como ficou conhecido o Hospital Asylo Santo Ângelo, começou a ser idealizado em 1917, quando o advogado paulista José Carlos de Macedo Soares fundou a Associação Protetora dos Morféticos, entregou sua presidência ao arcebispo dom Duarte Leopoldo e Silva e conseguiu, de frei Antonio da Virgem Maria Muniz Barreto (então prior do Convento do Carmo, de Mogi), em 1918, a doação das terras. Distantes, isoladas, de difícil acesso. O arquiteto Adelardo Soares Caiuby, orientado pelos sanitaristas Emílio Ribas e Joaquim Ribeiro de Almeida, fez o projeto do sanatório, que deveria ser construído pela Santa Casa de São Paulo.

Era uma cidade em miniatura; com tudo o que uma cidade precisa ter: igreja, posto policial, teatro, campo de futebol, praça, clube. No conceito da época, o isolamento era um benefício; para os doentes e para o resto da sociedade.

A construção do Sanatório de Santo Ângelo demorou 10 anos; ele foi inaugurado no dia 3 de maio de 1928. Mas só três meses depois, a partir de 2 de agosto de 1928, os primeiros pacientes começaram a chegar. Vinham em ônibus de quatro bancos com as vidraças cobertas por cortinas. Primeiro os casados, depois os solteiros e, por fim, os acolhidos em enfermarias.

Segundo relata Marilene Moreira Feliciano, em tese que apresentou para o título de Mestrado em Serviço Social na PUC-SP, o regime no sanatório era muito rígido. E os pacientes que tentassem fuga, se capturados com vida, eram presos e condenados a penas entre 3 e 12 meses de reclusão. Os de melhor condição financeira também não escapavam à segregação. Mas tinham conforto maior em pavilhões de estrutura e alimentação diferenciadas – pelo que pagavam.

Nenhum deles, entretanto, escapava à regra quando lhe nasciam filhos saudáveis. Ainda bebês, eram separados dos pais e entregues a parentes. Se não houvesse outros vínculos familiares, as crianças eram encaminhadas aos preventórios, verdadeiras colônias infantis localizadas em Jacareí e Carapicuíba.

O sanatório cresceu de tal forma que, 12 anos após sua inauguração, foi iniciada campanha para a construção de um cine-teatro maior. Havia, nessa época, 1600 pacientes morando no espaço e foram eles os responsáveis pelo movimento que, em pouco tempo, recolheu dinheiro suficiente para o empreendimento. O livro de ouro foi aberto pelo interventor Adhemar de Barros, que doou 10 mil contos de réis. Em maio de 1948 o cine-teatro foi inaugurado. Ainda hoje – apesar do abandono completo – é tido como projeto modelo do arquiteto Rino Levi.



A evolução do tratamento e dos conceitos sanitários levou à redução dos internos em Santo Ângelo. Em 1962, foi abolido o isolamento compulsório e o antigo Sanatório de Santo Ângelo passou a ser hospital geral e hoje denominado Arnaldo Pezzuti Cavalcanti.

CARTA A UM AMIGO
Enterraram o bicho errado

Meu caro leitor

A história tem mais de 50 anos. Naqueles anos 1960 em que Mogi das Cruzes não tinha mais de 60 mil habitantes e assustava-se muito com as estripulias dos universitários que começavam a invadir suas ruas, e o footing da Rua Dr. Deodato Wertheimer dividia com os bailes do Itapeti os interesses da juventude local; na esquina das ruas Moreira da Glória com a José Bonifácio funcionava uma das lojas funerárias da Cidade. Nesse tempo, não havia velório municipal e o comum era velar os mortos nas suas próprias residências. Não havia também uma concessionária do serviço funerário local e, assim, dois ou três “papas defuntos” estavam sempre às turras na disputa por um enterro de última hora.

Mas, estranhamente, aquela funerária em especial não se envolvia nas disputas. Era a mais antiga e tradicional de Mogi e ninguém por aqui ignorava que, entre um sepultamento e outro, ela dedicava-se a uma atividade diversa: o Jogo do Bicho. Era o tempo em que os cambistas circulavam livremente e a certeza do pagamento do prêmio ficava por conta dos fios de bigode do banqueiro principal. Mas não é que, em determinada época, um delegado recém chegado decidiu aparecer nos jornais como o quixotesco combatente do Jogo do Bicho?

Dito e feito: num dia de sol armou a armadilha, chamou a imprensa e lá foi dar o que esperava ser um flagrante indefensável: parou o enterro no meio e mandou abrir o caixão. Tinha certeza de que ia encontrar toda a papelada do Bicho escondida na urna mortuária. Encontrou mesmo foi um defunto.

Nesse dia, deu burro na cabeça.

Abraços do

Chico



Flagrante do Século XX
enterro
MANIFESTAÇÃO – Foi na primeira metade da década de 1950. A Confeitaria Seleta (direita) já se havia instalado na Rua Barão de Jaceguai e o Diário de Mogi ainda não ocupara o prédio da esquerda que seria sua primeira sede a partir de 1957. Esse foi o cenário para uma grande manifestação da comunidade, em repúdio à morte de um menino, que brincava às margens do Rio Tietê. O menino teria sido morto por um soldado da antiga Força Pública. No dia do enterro, milhares de pessoas formaram um cortejo que subiu a Barão de Jaceguai rumo à velha sede da 1ª Companhia Independente da Força Pública, então instalada na esquina da Rua Rodrigues Alves. Possível identificar na foto, entre outros: Benedicto Alves, Dermerval Arouca, Isaac Grinberg, Isidoro Boucault. José Silveira, Rafael Cusatis, Tufy Elias Andere e Zoé Arouche de Toledo.

QUEM É
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GIORGETTI – Giorgio Giorgetti, italiano, com a esposa Helena, de Bariri, chegou a Mogi em meados da década de 1930. Arrendaram a Chácara dos Castelões e, nela, instalaram o Hotel e Restaurante Estância dos Reis. No espaço hoje ocupado pelo conjunto Pombal, início da Vila Oliveira. Cuidaram de montar uma cozinha maior e a área do restaurante; também de construir, anexo, os apartamentos. Eram cômodos grandes, banheiros privativos. As janelas davam para um quintal interno, as portas para um varandão de mais de dois metros de largura. Muros baixos separavam a varanda do gramado com vista para o bosque e o lago. Nela, havia redes e bancos dispostos sobre o chão de pequenos ladrilhos vermelhos. Deixaram o local em 1949, e montaram a Cantina Mogiana, na Rua Dr. Deodato Wertheimer.

O melhor de Mogi
O Largo dos Remédios. A praça está abandonada, sem qualquer cuidado. Mas é, ainda hoje, uma lembrança viva do passado da Cidade. Guarda as características do início do século passado e poderia se transformar num ponto de referência de Mogi. Para isso basta uma limpeza, dois bancos novos e alguma vegetação. Nada de muito caro, é só ter vontade.

O pior de Mogi
A mania de cortar praça pública. Em uma Cidade onde não se cria uma nova praça há muitos anos, deu-se de cortar pedaços das poucas que existem, para instalar pontos de ônibus e de táxi. Ou estacionamento. Foi assim na Oswaldo Cruz, Bom Jesus, Shangai, Francisco Nogueira, Catedral e no Carmo. Não sobrou nenhuma.

Ser mogiano é….
Ser mogiano é… ter sido aluno da professora Romani.

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