Releitura de filme revelará contrastes

Claude Lévi-Strauss e Mário de Andrade conferiram a Festa do Divino de Mogi em 1936 / Fotos: Divulgação

Se o antropólogo Mário de Andrade e o casal Claude e Dina Lévi-Strauss pudessem voltar a Mogi das Cruzes para acompanhar a atual Festa do Divino Espírito Santo, oito décadas após a filmagem produzida pelo trio em 1936, certamente encontrariam um cenário totalmente diferente. A começar pelo ritual que os atraíram à Cidade, a cavalhada – representação da luta entre mouros e cristãos na Idade Média – que há anos não faz mais parte da programação do evento; o Largo Bom Jesus, principal palco do filme de autoria dos pesquisadores, antes com chão de terra e hoje pavimentado; os grupos folclóricos – atualmente reduzidos a oito -; e os antigos casarões da região central, a maioria já demolida.

Estes e outros contrastes serão destacados no evento “Mário de Andrade – 80 anos”, uma releitura do filme “Festa do Divino de Mogi das Cruzes – 1936”, produzido pelos três estudiosos e cuja cópia original, em preto e branco e com 28 minutos de duração, faz parte do acervo da Cinemateca do Centro Cultural de São Paulo, na Capital. O evento está marcado para o próximo dia 14 de maio – data da Entrada dos Palmitos -, às 10 horas, com início no Largo Bom Jesus e atividades também no Casarão da Mariquinha, antiga residência da família Souza Mello retratada no filme da década de 30.
Paralelamente, o público poderá conferir a exposição homônima, organizada pelo Núcleo de Audiovisual do Casarão, com 30 fotografias preto e branco e coloridas, para mostrar estes contrastes entre a Festa do Divino encontrada por Andrade e o casal Lévi-Strauss e o evento dos dias atuais. A mostra terá início na próxima quinta-feira – quando começa a programação religiosa e folclórica – e se estenderá até o dia 30 de maio, com visitas gratuitas das 10 às 20 horas, no Casarão da Mariquinha (Rua Alfredo Cardoso, 2, Largo Bom Jesus).
“Nestes 80 anos, Mogi perdeu grande parte de seus bens materiais e imateriais porque não soube conservá-los. Além disso houve o avanço imobiliário que transformou o entorno do Largo Bom Jesus, onde a cavalhada acontecia. O Casarão da Mariquinha, construído em 1845, é um dos símbolos da resistência entre os poucos imóveis antigos que ainda temos. A visita destes antropólogos, que resultou no filme, enaltece a Festa do Divino em Mogi, mas isso nem é tão lembrado, principalmente pelas escolas, que serão convidadas para a releitura do dia 14”, explica José Luiz da Silva, o Rabicho, gestor cultural do Casarão.

Preparação da cavalhada no Largo Bom Jesus; ao fundo, a casa de Antenor de Souza Mello