Que vergonha de nós!

Agnes Arrudaagnesarruda@gmail.com
Outro dia uma publicação no Facebook questionava os leitores acadêmicos se suas dissertações de mestrado ou teses de doutorado eram de fato compreensíveis para o trabalhador comum que, com seus impostos, financia esse tipo de pesquisa. Como imagem de fundo para a postagem estava a fotografia de uma faxineira lendo um banner científico nos corredores do que parecia ser uma universidade.

Achei ótima a levantada de bola e não tive dúvidas sobre clicar e responder: “Meu objetivo de vida”. Sim; ao meu ver, não faz o menor sentido estudar tanto sobre um tema que considero relevante se for para a discussão ficar restrita aos professores da banca de defesa ou aos que, por ventura, se depararem com o conteúdo em um banco de dados qualquer. Também é pura ingenuidade acreditar que a publicação de artigos sobre o tema vai ajudar na democratização desse conteúdo a um público que não está habituado a esse tipo de leitura.

Não foi surpresa, no entanto, perceber que muitos dos outros comentários da publicação iam de encontro ao meu. Os argumentos apresentados eram de que não existe isso de tese com linguagem acessível, que o conhecimento acadêmico/científico é rebuscado mesmo, e que isso já basta para justificar o fato de que não, dissertações e teses não devem ser compreensíveis ao público em geral, mesmo sendo esse público o financiador das pesquisas. Daí para acusar quem fez a postagem de “problematizar onde não há nada para ser problematizado”, ou seja, do famoso mimimi de internet, foi um pulo.

Para mim a constatação é óbvia: continuar privando as classes menos favorecidas do acesso ao conhecimento é umas das formas mais perversas da manutenção da desigualdade social e da ode à meritocracia. Não por acaso, a postagem em questão, original de 22 de julho de 2017, voltou à tona no dia em que a Agência Brasil divulgou a manchete “Seis bilionários do país têm a mesma riqueza que os 100 milhões mais pobres”. É duro, eu sei, mas não reconhecer os próprios privilégios torna bem mais convincente o discurso de que “é só você se esforçar bastante que você chega lá”.

Agnes Arruda é jornalista e coordenadora dos cursos de Comunicação da UMC.