Piada abortada

Desde muito cedo na vida ele foi desafiador, briguento e piadista. Mercê desta última característica, suponho eu, os desafios que cometia e que muitas vezes geravam brigas, eram compensados por brincadeiras que, por sua vez, neutralizavam a formação de inimizades. Dificilmente, pois as brigas se alongavam no tempo evitando quebras definitivas de amizade.
Assim, apesar de se reconhecer brigão, nunca deixou de rapidamente buscar a pacificação e a convivência harmoniosa. A mesma disposição para a controvérsia, sempre esteve presente na recomposição da concórdia.

Tanto é assim que, a despeito de adorar uma polêmica, com facilidade dá o braço a torcer. Às vezes é até surpreendente que o faça através de mudança radical no seu posicionamento dentro de uma discussão: por exemplo, pode estar defendendo um certo ponto de vista – e não importa se pouco ou muito acirradamente –, com o qual a parte contrária de repente concorda como a sucumbir à sua argumentação, e ele, quase que instintivamente, quiçá por um grande amor à contrariedade, retruca a garantir que estava equivocado e que a tese do seu interlocutor é que era a correta.

Embora permaneça ainda hoje com essa índole belicosa, a verdade é que o amadurecimento, melhor dizendo, a velhice o tem tornado uma pessoa mais cordata ou, ao menos, pouco disposta a divergências que tragam irritação desnecessária. Por isso, prefere silenciar a discutir sobre política e futebol, principalmente.

Aquietado ou não hoje em dia, lembrei-me desse amigo piadista – e piadista aqui supera a simples ideia do contador de piadas para chegar ao inventor desses chistes – por causa da mania que ele tinha de vivenciar a piada, isto é, ele sustenta que muitas delas podem ser, por assim dizer, aplicadas ou interpretadas como que teatralizadas.

Foi assim, que certa manhã em que deveria viajar para fora do país, na companhia do seu patrão e no avião particular desse patrão, antes de encetar a ida ao aeroporto da vizinha São José dos Campos, onde estava o avião, resolveram tomar o café da manhã numa padaria que ainda existe no Socorro, de dono português.

Foi então, que a ideia da teatralização de dada pilheria lhe veio à mente, dando tempo somente dele avisar ao patrão e ao filho deste, que os acompanhava, para sentarem-se nos banquinhos do balcão, longe dele. Os dois assim agiram e ordenaram seus cafés com leite e pão com manteiga. Nosso herói pediu um conhaque. Uma vez servido o conhaque, ele pediu ao dono da padaria que atendia naquele momento pessoalmente que, por favor, trocasse o conhaque por um copo de leite gelado, porque era muito cedo para alcoólicos. O padeiro pacientemente o atendeu e repôs o conhaque na garrafa.

Bebido o copo de leite, o piadista foi lentamente saindo do banquinho e no mesmo passo dirigindo-se à porta de saída para a rua, sendo, nesse instante, interrompido pela voz do português a lhe cobrar o leite. De imediato ele respondeu que trocara pelo conhaque. “Mas, o conhaque não havias pago”, redarguiu o padeiro. Quando o piadista ia dizer: “Mas, o conhaque não tomei, por isso não devo pagar”, finalizando a teatralização, tudo foi abortado porque o patrão e seu filho não sustentaram a seriedade e riram antes da hora. A piada foi abortada.

Redação

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