Ode à cachaça: “O pingo e a pinga”

Uma nova abobrinha – como os jovens hoje em dia referem – me foi mostrada pelos que manejam a rede mundial de computação. A abobrinha é a seguinte: “Quando eu era criança tinha muito medo de bêbados. Agora, aos quarenta anos, percebo que não somos perigosos!”. A partir dessa frase pus-me a refletir sobre bêbados, drogados, nem tanto e abstêmios.
Nos usuários das chamadas drogas ilegais, não vou me deter, única e simplesmente, porque não tenho, nem nunca tive convívio com nenhum deles, nem na fase leve, nem na pesada. Não sou especialista, não tem assim propósito que me embarafuste nesse mundo triste e para cuja amenização não sou capaz mais do que lamentar a falta da existência de uma política de Estado que contemple, ao menos, a mitigação dessa insanidade.

O alcoolismo, considerado pela maioria como de menor potencial ofensivo ao convívio social é rotulado por muitos como vício acobertado pelo manto da legalidade. Com efeito, as bebidas alcoólicas são, em seu fabrico, reguladas por lei e não é raro de se encontrar algumas que, sendo autorizadas oficialmente em certas sociedades, não o são em outras, em virtude da exagerada graduação de álcool que ostentam.

Fora desse aspecto, mantendo-se em um padrão mais ou menos comum, é liberada à venda e, também, à publicidade, a qual se faz sempre muito atraente e cheia de charme.

Bem razoavelmente, as bebidas alcoólicas vêm sofrendo restrições no que concerne a evitar comportamentos inadequados de seus usuários, principalmente, pela perda de reflexos que lhes dificultam discernimento normal das situações em que se envolvem, tornando-os em alguns momentos lentos demais e em outros sumamente ligeiros e, às vezes, as duas coisas ao mesmo tempo, como só aos bebuns acontece, de sorte a agirem em absoluto descompasso com a normalidade. Não há por isso como não concordar, por exemplo, com o slogan: “Se beber não dirija!”.

No entanto, festa não é festa, sem bebida. Fica tudo muito sem graça. Não há efetiva descontração. Os ditos populares são cheios de sabedoria e não se descarta o que diz: “in vino veritas”. É grande o número de pessoas reticentes com quem não bebe, porque elas passam a impressão de que estão se policiando por medo de exteriorizar sentimentos que não devem ou não podem por pra fora. O abstêmio, mesmo que o seja por motivo de saúde, é, invariavelmente, um chato. E periga ser traiçoeiro.

Cachaça é remédio pra todos os males e a única coisa que se pode recomendar quanto ao seu desfrute é não exagerar. Nada em excesso é bom. Além disso, vem à tona outro ditado: “Sabendo usar não vai faltar”.

Finalmente, durante mais de sessenta anos estive às voltas com a lírica de uma canção que eu ouvia em disco na vitrola da casa de meu avô, no início dos anos 1940. O disco sumiu, mas, música e letra ficaram gravadas na minha memória. Em vão lutei pra saber de quem era a autoria. Consultei Moraes Sarmento e Inezita Barroso e nada. Na semana passada apelei para o Google e aí está, de Antônio Almeida e Pedro Caetano: “O pingo pinga, mas a pinga é diferente/ Pois o pingo é muito frio e a pinga é muito quente/ Oi, pinga-pinga, pinga aqui e pinga lá/ Pinga mais um bocadinho/ Pinga boa sinhá/ Defendo a pinga porque a pinga tem valor/ Esquenta no inverno e refresca no calor/ Quem toma um pingo pode até se resfriar/ Mas um pingo só de pinga é o bastante pra curar!”.

Redação

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