O portão esquecido(fábula)

Era uma vez… um portão.
Mas não era um portão qualquer, desses construídos sem cuidados no acabamento nem preocupação estética.

Era um senhor portão de ferro trabalhado, largo o suficiente para a passagem de qualquer carro, cheio de curvas, arabescos, voltinhas, e mais um sem número de detalhes que podiam ser descobertos e observados a cada nova passada.

Mas é aí que começavam os problemas.

Ninguém passava por ele.

Imponente, com suas pontas de lança mirando o céu, queixava-se de esquecimento, abandono.

Passava dias e dias fechado, trancado, sem o sorriso de uma abertura para passagem de pessoas ou carros.

E para piorar seu estado de ânimo, uma horrorosa corrente se enrolava e prendia suas duas faces, unindo-se junto a um pesado cadeado trancado. Fora um toque cruel  para dificultar ainda mais seu uso: um fino fio de arame revestido de plástico era dobrado várias vezes, em nós cegos, para reforçar sua imobilidade.

Era o fim.

Pra que é que ele existia?

Se era para não abrir ou fechar, poderia perfeitamente ser uma continuação dos felizes gradis, seus vizinhos, tranqüilos, imóveis e conformados.

Mas não pensem que o portão estava sem uso por proteger uma casa sem moradores.

Havia moradores e carros, sim… usando outro portão.

Um portão igualmente trabalhado em ferro, grande e majestoso como o primeiro, mas com uma diferença: abria e fechava com um controle remoto, eletrônico.

Era chegar, apertar o botão do aparelhozinho de controle e o portão recebia carros e pessoas com suas duas faces abertas, sem dar nenhum trabalho a não ser o pequeno toque.

Servia até para as crianças brincarem, como brincam com portas automáticas nos shoppings ou com as escadas rolantes.

E esse entra e sai e abre e fecha festivos eram um sofrimento para o outro portão,

Mas lá no seu âmago, no escondidinho de suas ferragens, jazia uma esperança meio maldosa: um dia, de preferência com bastante chuva ou frio, os moradores da casa iriam perder ou esquecer o aparelhozinho de controle. Nesse dia o fiozinho seria arrebentado, o cadeado aberto e as correntes atiradas a distância… e de novo ele serviria para o que veio.

Mas enquanto isso não acontecia, até que de vez em quando lhe passava pelo pensamento uma vontadezinha de parar de invejar o outro portão… e preparar-se, também, para ganhar um motorzinho elétrico. Quem sabe?