O adeus à carateca e agricultora Teresa Sesaki

Teresa Sezaki faleceu aos 90 anos, no último domingo. (Foto: Academia Furlan/Reprodução)
Teresa Sezaki faleceu aos 90 anos, no último domingo. (Foto: Academia Furlan/Reprodução)

ELIANE JOSÉ
A mulher que sonhava ser professora foi agricultora na maior parte dos 90 anos vividos e conseguiu, a seu modo, romper com a rotina de uma típica moradora do campo aos 60 anos, quando bateu asas, como dizia entre uma piscadela contida e alegre. As asas foram moldadas pelo caratê, a arte marcial triangulada por movimentos de ataque, imobilização e defesa ensinada a ela pela Academia Kyokushin Oyama de Mogi das Cruzes, frequentada durante mais de 20 anos.

A faixa preta 2º Dan, Teresa Tocie Sezaki deixa aprendizado e saudades. Ela faleceu domingo, aos 90 anos, e foi enterrada às 14 horas desta segunda-feira (9), no Cemitério da Saudade, com o símbolo da graduação máxima no peito e um terço nas mãos.

Dona Teresa era autodidata, aprendeu o português e o japonês praticamente sozinha. Escrevia crônicas em O Diário e também São Paulo Shimbun, tradicional jornal da colônia japonesa.

Há algum tempo, sobressaía uma urgência dos anos vividos. Quando escrevia as singelas, mas perspicazes crônicas, publicadas em nossa página 2, ligava para a redação, insistia: “não pode demorar para publicar”. E trabalhava, e treinava, mesmo já sem muitas forças.

Na escrita, o fio condutor era a perfeição da natureza. Dona Teresa exercia o poder da observação para entender os ciclos da vida. E escrevia sobre as experiências do campo utilizando-se de um rico universo de hábitos, vitórias e fracassos do beija-flor, da formiga, do cachorro, da aranha, dos brotos dos frutos e verduras. Procurava alinhar esse cotidiano do mato e da terra à vida do homem da cidade.

Levou para o tatame o que aprendeu com o manejo da enxada mais do que bem talhada: a gasta lâmina de ferro do objeto de uso pessoal está reduzida à metade, após décadas de trabalho. A rotina da prática é um dos pilares caratês, que busca o autocontrole e a serenidade, segundo o mestre Seijo Isobe, que representa essa escola no Brasil.

Os manuscritos de dona Teresa chegavam à redação, numa folha de papel almaço, caprichosamente colocada dentro de um envelope pardo, a cada dois, três meses.

Teresa foi nome conquistado no convívio com os brasileiros. No registro, era Tocie.

Frequentou a escola menos de um ano, a 18 quilômetros da casa pobre da família. A notícia mais triste de sua vida, repetia, foi dada pelos pais, que precisavam dela na lavoura da família em Guaiçara (Interior), onde nasceu. Ela obedeceu ao pai, e abandonou a escola. Mas tarde, casou-se por meio do “miai”, o arranjo nupcial firmado entre as famílias do noivo e da noiva, e veio morar na Rodovia Mogi-Taiaçupeba, em 1950.

Ali, passou a ajudar o marido, Wataru Sezaki (falecido em agosto do ano passado, no mesmo dia do aniversário dela), enquanto nasceram e cresceram os filhos Elena, Neusa, Luciana, Roberto e Márcia. Depois de criá-los, o filho a convidou para aprender caratê, numa academia da Rua Coronel Souza Franco. “Foi a minha liberdade”. Depois, ninguém e nada a seguraram.

Vez ou outra, ela falava sobre a condição de subjugação da mulher no século passado e da maneira como o esporte a impulsionou a agir com as próprias pernas e mãos.

Com o caratê, ganhou identidade. Começou a treinar fora dos padrões, aos 60 anos. Chegou à faixa preta. Participou de torneios e apresentações representando Mogi das Cruzes, inclusive no Japão.

A história da agricultora de espírito batalhador ganhou visibilidade entre academias e praticantes. Um fator inquestionável: o fato de aquela carateca de cabelos brancos, baixa estatura, corpo encurvado pelo trato com a terra, se agigantar diante de um obstáculo como um tijolo, estilhaçado mediante um golpe.

Com história de vida que nunca caberá num papel, dona Teresa atraía quem a conhecia. Tinha passos ligeiros. Foi entrevistada em programas de variedades das redes Globo (Faustão, Ana Maria Braga), Record, Bandeirantes.

Um dos reconhecimentos: quando foi levada para conhecer os mestres do Kyokushin Oyama no Japão, numa volta às raízes dos antepassados dela. Também recebeu o título de Cidadã Mogiana, concedido pela Câmara Municipal. Fez amizades com comerciantes, políticos, religiosos. Era devota fervorosa de Santo Antonio. Com freiras do Instituto Dona Placidina foi conhecer o Vaticano, na Itália.

Deixou além dos quatro filhos, seis netos, dois bisnetos, amigos, admiradores. Arou a terra até quando a saúde permitiu e defendia os filhos como uma leoa, disse Neusa, uma delas. Tinha como flor preferida a colorida “boca-de-leão”.