Múltiplas formas de educar pela arte - O Diário - Mogi das Cruzes , Suzano e Região do Alto Tiete
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           CADERNO A

Múltiplas formas de educar pela arte

Caderno A, Circuito

LUCAS MELONI

A arte é uma das paixões de Andreza Teixeira, de 39 anos, arquiteta e designer de interiores por formação. Outra delas é ensinar. Em busca de aliá-las, ela montou o Ateliê do Olhar, escola de ensino da arte a crianças e adolescentes com base em experiências empíricas, pontos de vista e troca de contatos. Na visão dela, a produção artística tem papel importante no desenvolvimento educacional dos pequenos graças, sobretudo, à imaginação e ao fato de que não foram moldados de forma a terem a criatividade limitada pela rotina, como os adultos. Um projeto feito pelo espaço de artes é o intercâmbio de obras – o mais recente deles ocorreu com crianças de Siem Reap, no Camboja. A próxima edição deve ser com grupos da Malásia e Tailândia. Com carimbos que tomam quase todo seu passaporte – são 23 países visitados -, Andreza gosta de percorrê-los de bicicleta. É desta forma que ela conhece histórias, conversa, descobre identidades e aprende sobre as culturas locais.
No meio do curso de Arquitetura e Urbanismo (na Universidade Braz Cubas/UBC), no começo dos anos 2000, Andreza fora convidada a participar de uma Organização Não-Governamental (ONG). Ela apaixonou-se pela arte-educação, termo que passaria a ser aplicado muitos anos depois e sobre o qual o filósofo e professor da Universidade de Notre-Dame, Gary Gutting, escreveu, em maio de 2013, no The New York Times. Na ocasião, ele falou sobre a necessidade de ter a arte na educação e os riscos assumidos pelas instituições de ensino superior que preparam os alunos para exames, sem compreender os assuntos por completo, para esquecê-los na sequência.
A partir deste contato com este gênero criativo/educacional, Andreza passou a nortear seu trabalho para esta área. Ela fez pesquisas do desenho infantil e passou a acompanhar de perto os trabalhos da arte-educadora Edith Derdyk (brasileira com formação em Artes Plásticas pela Fundação Armando Álvares Penteado/Faap). As obras e o trabalho já estabelecido da artista tornaram-se uma referência para a mogiana. A dinamarquesa Anna Marie Holm também tornou-se uma referência para ela.
Conforme as pesquisas sobre desenhos e técnicas avançavam, a arte-educadora percebia que havia potencial para ampliar o seu trabalho. Surgiram, então, convites de escolas particulares para a implantação de novas técnicas no ensino de artes a turmas de diferentes idades. Dos encontros em salas de aula, algumas mães a convidaram para dar aulas particulares aos pequenos. O Ateliê do Olhar surgiu em 2007. O nome, aliás, tem uma razão que Andreza gosta de explicar. O olhar é por causa da pesquisa, do estudo do mirar infantil, de como a criança enxerga o mundo.
Hoje, cerca de 60 crianças e adolescentes têm aulas em diferentes horários e dias da semana. A faixa etária dos alunos varia de 3 a 16 anos. Segundo ela, o principal conceito do trabalho é fazer com que a pessoa entenda que cada uma delas tem uma linguagem própria. A partir disso, ela consegue dialogar com outros artistas e entender novas culturas. Entender outras expressões. A linguagem da arte é natural da criança, gosta de dizer.
Para auxiliar na formação da bagagem cultural/referencial dos alunos, a arte-educadora procura apresentar e trabalhar com artistas locais. Há, em primeiro lugar, uma pesquisa. Depois, os alunos estudam as técnicas desempenhadas pelos criadores artísticos, seus traços e suas obras. Jaum (João Ricardo Vieira Santos, o criador do LaLaLa Dog), Paulo Seccomandi, Lúcio Bittencourt, Fábio Cruz, Akinori Nakatani e Thalita Chiara são alguns dos profissionais analisados pelas turmas do Ateliê.
Ela destaca um projeto recente de arte contemporânea que uniu os alunos em torno da obra do artista plástico Nobuo Mitsunashi. Em abril passado, ele esteve em Mogi das Cruzes (no Casarão do Chá) para carbonizar 15 mil rosas e fazer 25 canoas de madeira que comporiam uma obra dele a ser exposta, naquela ocasião, no Museu Afro-Brasil, em São Paulo. A artista destaca que o conceito de arte contemporânea é diferente do de outros gêneros porque as dimensões são outras, as ideias baseiam-se em outros nortes e a produção é muito peculiar. Os pais puderam acompanhar de perto um trabalho novo, diferente daquele desempenhado no Ateliê. As idas a museus de São Paulo (pelo menos três vezes ao ano) são outro diferencial, segundo ela.
Já no intercâmbio com as crianças do Camboja, um projeto que a professora gosta de chamar de “Diálogo” mostra como as crianças leem uma outra cultura, quais as observações e ideias que formam. Ela foi ao país do sudeste asiático há dois anos e por lá ficou durante cinco meses. Malásia e Tailândia são os próximos países a receberem o intercâmbio. As principais percepções, por parte dos brasileiros, foram as cores (mais naturais), desenhos mais contemplativos e sem videogames.
Nesta viagem, ela passou por 11 países, com a intenção de estudar as culturas das nações da Indochina, um recorte de terrras que começa no leste da Índia e termina ao sul da China. Andreza foi influenciada por três alunas do espaço de arte que sempre traziam elementos da cultura oriental para suas produções. Nesta viagem, de cinco meses, feita de bicicleta (90 km por dia), ela estudou técnicas de tingimento, de tear e de desenho empreendidas nessas culturas. O objetivo é ampliar este trabalho de percepções, não limitado por fronteiras. Para este ano, em que o Ateliê completa 10 anos, ela prepara uma exposição com a presença de ex-alunos. Ainda não há definição de local.
Quando não está no trabalho, a artista gosta de praticar ioga e pilates e fazer trilhas de bicicleta. As que existem em Mogi são as favoritas porque têm muitos morros e preparam o corpo para as surpresas enfrentadas em outros países.
É com a intenção de ensinar e estimular o desenvolvimento artístico que Andreza trabalha a educação pela arte. De múltiplas formas.

  • durante curso de tear e tingimento de seda em Luang Prabang, no Laos
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  • em visita ao túmulo de Vincent e Theodore Van Gogh, em Auvers- Sur- Oise, na França
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  • Andreza com as crianças da Vila Hmong de Hau Thau, norte do Vietnã
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  • em intercâmbio com a Small Arts School em Siem Reap, no Camboja
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Curto Circuito

Viver em Mogi é…
estar perto do mar.
O melhor da Cidade é…
a paz e os armários do Bar do Pardal, as delicadezas e o tempo das micro-orquídeas do seu Masuji, a fé e a parede de taipa do Casarão do Beija-Flor e a exuberância técnica da restauração do Casarão do Chá.
O pior da Cidade é…
o descaso com o patrimônio artístico e histórico.
Sinto saudade …
do virado preparado pelo meu vô Josafá e das deliciosas conversas com o seu Sérgio Moretti.
Encontro paz de espírito…
no café da manhã na cozinha mineira da minha vó Ladir e no almoço de domingo na casa da minha vó Maria.
Para ver e ser visto…
a deliciosa troca de culturas.
Meu prato preferido é…
os jantares do Ernesto com meu gato Bakunin no colo.
Livro de cabeceira…
O Livro do Chá, de Kakuzo Okakura.
Peça campeã de uso no meu guarda-roupa:
meus pés descalços.
O que não tem preço…
o samba da dona Cabocla em Itapuã, Salvador, e o samba do Bar da Caldeira, em Manaus.
Uma boa pedida é…
jantar na casa dos amigos.
É proibido…
parar a festa.
A melhor festa são …
as festas populares, em especial o “Dia de los Muertos”, na Ilha de Janitzo, no México, a de São Pedro, no Sítio do Beija-Flor, e o arraial da família, na Ponte Grande.
Convite irrecusável…
o que você não espera.
O que tem 1001 e utilidades…
o canivete suíço.
Meu sonho de consumo é…
descascar mais e desembalar menos.
Qual o maior espetáculo da minha vida…
pôr do sol no Salar de Uyuni na Bolívia.
Cartão-postal da Cidade…
a valente Serra do Itapeti.
O que faltam na Cidade…
ousadia e o balcão do restaurante do seu Ueda.
Qual a química da vida…
os bons encontros no caminho.
Deus me livre de…
os responsáveis pelo Galpão Arthur Netto, Casarão da Mariquinha e Casarão do Chá perderem a fé.

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