Médico Nobolo Mori inspirou obra na Praça do Imigrante Japonês - O Diário - Mogi das Cruzes , Suzano e Região do Alto Tiete
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Médico Nobolo Mori inspirou obra na Praça do Imigrante Japonês

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Nobolo Mori conta que seus trações foram copiados durante Bate-Papo (Foto: Eisner Soares)

Nobolo Mori conta que seus trações foram copiados durante Bate-Papo (Foto: Eisner Soares)


CÉLIA SATO
Foi numa tarde de quinta-feira fria e chuvosa que se colocaram lado a lado o modelo e o monumento. Ele chegou protegido por um guarda-chuva escuro e sem o tradicional jaleco branco de médico e ali, conforme combinado com a reportagem, pode rever de perto a estátua esculpida pelo mestre Antonius Josephus Maria Van de Wiel, artista plástico holandês estabelecido em Mogi das Cruzes.

A obra em homenagem ao imigrante japonês foi concebida lá no ano de 1969 em seu ateliê da Vila Oliveira, cujo espaço ainda existe, mas com uma atividade distinta, conforme observa o médico Nobolo Mori. Naquele ano, por um período de pouco mais de um mês, recorda, esteve várias vezes com o artista para ‘posar’, quer dizer, não exatamente para ficar imóvel sendo copiado, mas para ‘bate-papo’ com o artista que, então, ia observando as suas características físicas.

Assim surgiu o imigrante japonês de enxada no ombro e bornal nas costas e com o tradicional chapéu para se proteger do sol durante a lida na agricultura. O doutor Nobolo, como é chamado o médico na Cidade, entrega que os acessórios foram incorporados pelo artista. ‘Não fiquei carregando enxada e a sacola. Nem usei chapéu’, conta. Revela que a experiência de ser modelo o levou a ter ‘amor à arte’.

Na verdade, ele já tinha alguma familiaridade com as artes plásticas, pois fazia aulas com o professor Van de Wiel. Aliás, foi assim que artista e modelo se conheceram. Lembra que a mulher retratada no monumento é também uma médica, de Suzano. Mas não se recorda do nome dela. Assim como o doutor Nobolo, ela também fazia aulas com o artista. Outro detalhe: os modelos ‘posavam’, ou melhor, se apresentavam separadamente.

Após ser fotografado junto ao monumento, o então modelo do imigrante japonês, que na verdade é natural da cidade de Birigui, no interior do Estado de São Paulo, observa que os monumentos são símbolos importantes para uma cidade e sua população. No caso deste, localizado na Vila Rubens, ele analisa e atenta para os detalhes do conjunto. “Todo jardim japonês é adornado por árvores (pinheiros), pedras e lago, como está o cenário aqui. Só não tem água porque tinha gente que ficava se banhando. Mas o cenário está de acordo”, elogia.

O médico que fez o ‘grupo escolar e o ginásio’ – atual ensino fundamental I e II – em Mogi das Cruzes e o colegial ou ensino médico em São Paulo e estudou Medicina no Rio de Janeiro enaltece o trabalho e a dedicação dos imigrantes japoneses. “São muito trabalhadores e contribuíram para o crescimento do Brasil”, avalia, lembrando que seus pais trabalharam na lavoura e depois na avicultura.

Um referencial às novas gerações
Manter a tradição de um povo é importante para continuar tendo um referencial às novas gerações. Conhecer o passado, as origens e cultivar os costumes devem ser incentivados sempre, na visão do médico Nobolo Mori. Aos 92 anos continua clinicando diariamente e se mostra uma pessoa solicita, humilde, paciente e iluminada. Tem sempre algo a ensinar.

Lembra que a preservação da cultura começa nas práticas simples do dia a dia. Por exemplo: “Ao acordar pela manhã deve-se sempre cumprimentar os pais e ao longo do dia se dedicar ao máximo a eles”. São regras básicas para todas as sociedades. Na verdade, são tão básicas que parecem banais, mas fazem toda a diferença na vida das pessoas, ensina.



O doutor Nobolo também ensina que as famílias devem se esforçar para estimular a preservação dos valores e da cultura do seu povo. No caso dos descendentes de japoneses, ele sugere o aprendizado da língua, o conhecimento da filosofia oriental, a religiosidade e a participação em atividades organizadas pela colônia, como as festas tradicionais que são referência em Mogi das Cruzes. Uma delas é o Akimatsuri, realizada anualmente, com a divulgação das atrações culturais, inclusive, cerimônias como a do chá, e de tooro nagashi, que consiste na soltura de barquinhos iluminados no lago.

O médico formado na Universidade Federal do Rio de Janeiro em 1953 atendeu inicialmente na Santa Casa de Mogi das Cruzes. “O Anésio Urbano era o provedor na época, então eu trabalhei lá durante vários anos”, recorda. Em 1962 construiu seu próprio hospital, o Ipiranga, a primeira instituição particular de Mogi das Cruzes. “Custou um milhão”, diz, mas não sabe definir a moeda vigente à época. “Não tinha esse dinheiro, então peguei empréstimo no banco”, acrescenta.

Sobre a política, diz que não combina com a medicina, porque a profissão de médico exige dedicação integral e se estiver envolvido com outros compromissos, vai faltar tempo para atender aos pacientes. O doutor Nobolo foi vice-prefeito na gestão do então prefeito Waldemar Costa Filho.

Missa marca 109 anos da imigração em Mogi
Hoje, 18 de junho de 2017, a imigração japonesa em Mogi das Cruzes completa 109 anos. A Cidade abriga uma das maiores colônias nipônicas e, em comemoração à data, uma missa campal será celebrada às 10 horas na Praça do Imigrante Japonês, em memória dos antepassados. O evento é organizado anualmente pela Associação Cultural de Mogi das Cruzes, o Bunkyo. A entidade é responsável também pela promoção da tradicional festa Akimatsuri, que é referência no Estado de São Paulo.

O primeiro navio japonês a atracar em terras brasileiras vindo do Japão foi o Kasato Maru. Ao chegar, os imigrantes se estabeleceram em diversas cidades do Vale do Ribeira. Depois, migraram para outras cidades e regiões e entre esses lugares está Mogi das Cruzes. Biritiba Mirim, Guararema, Salesópolis, Suzano, Santa Isabel e Arujá também registram grande número de japoneses e descendentes. Na sua grande maioria, vieram do Japão entre as décadas de 1920 e 1940. À época, para sobreviver, eram comum ver famílias inteiras trabalhando na lavoura. Ainda hoje, uma grande parcela dos agricultores da Região é formada por descendente de japoneses.

 

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