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Mariana de Souza, uma mogiana em defesa dos corais

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Mariana Rocha de Souza, de 31 anos, é doutoranda do Hawaii Institute of Marine Biology, (Foto: Arquivo Pessoal)

Mariana Rocha de Souza, de 31 anos, é doutoranda do Hawaii Institute of Marine Biology, (Foto: Arquivo Pessoal)

ELIANE JOSÉ
Em maio passado, a Universidade de Harvard, em Massachusetts (EUA), reuniu um grupo de 50 jovens pesquisadores em torno de um assunto que movimenta a academia na atualidade, a comunicação da ciência. Entre os selecionados para o ComScienCen 2017, estava a mogiana Mariana Rocha de Souza, de 31 anos, doutoranda do Hawaii Institute of Marine Biology, ao lado de um grupo de 12 outros pesquisadores que procuram respostas para um grande desafio: tornar os corais mais resistentes ao aquecimento global, que os dizimam numa velocidade galopante.

Nos últimos três anos, a elevação da temperatura no mar acabou com metade dessa espécie animal, responsável pelo equilíbrio de um ecossistema fundamental para a vida de um quarto de toda a fauna marinha e pelas barreiras de proteção das praias.

Mariana esteve na redação de O Diário, quinta-feira última, pouco antes de se encontrar com estudantes e universitários, num ofício que ela pretende abraçar ainda mais no futuro: compartilhar com jovens a própria história e os conhecimentos obtidos na jornada iniciada com a graduação em Biologia, na Universidade de São Paulo (SP), a pós-graduação, com especialização em oceanografia, na Universidade de Marselle, na França (2013), e o doutorado ainda em curso, iniciado na Universidade da Califórnia, em Merced (2015), e em andamento em Coconut, uma das ilhas do Havaí.

Popularizar a ciência é um dos objetivos da pesquisadora que frequentou o Instituto Dona Placidina e, depois, o Colégio Objetivo, por meio de uma bolsa de estudos. Para seguir a carreira acadêmica, ela foi beneficiada pelo programa federal Ciências Sem Fronteiras, em 2013.

“Quero inspirar outros estudantes a se dedicarem à pesquisa e mostrar que, mesmo pessoas como eu, filha de uma professora da rede pública e de um desenhista projetista, podem estudar no Exterior”, deseja ela.

Não é uma jornada fácil, admite Mariana, que segue em frente após enfrentar as barreiras culturais nas universidades, onde foi admitida após os testes de proficiência em inglês e francês. “É natural uma comparação entre uma estudante latina e um francês, mas é possível, com o estudo, principalmente, superar isso”, diz, lembrando uma cena de preconceito, quando um professor quis diferenciar os estudantes pela origem. Ela não teve dúvida. “Eu disse a ele, que estava sendo desrespeitoso comigo e um estudante africano”.

Além de sul-americana, a instiga a persistir na academia, na Ciência, o fato de ser mulher, num nicho onde os homens predominam. “Faltam referências femininas na Ciência. E isso começa quando se é criança, e os personagens cientistas são todos masculinos, como o Franjinha, o professor Utônio, no desenho das Superpoderosas, além de outros”.

Pequenas ações podem salvar o planeta



Mariana Rocha de Souza veio visitar a família em Mogi, e retornou ontem para o Havaí. Ele obteve o mestrado na Université Aix Marseille, na França, e leciona na University of Hawaii, Manoa. Nas horas vagas, busca falar com as pessoas sobre os corais e os meios de salvá-los. “Não temos o poder de deter o aquecimento global agora, mas podemos fazer pequenas ações para isso, como reduzir o consumo de plástico, não comprar esqueletos de corais, conservar a água e energia, para reduzir a elevação da temperatura”, reforça ela.

Em encontros com alunos nas escolas Objetivo e Maple Bear, e na Universidade de Mogi das Cruzes (UMC), destacou o trabalho que faz, retratado no filme Em busca dos corais/Chasing Coral, disponível no Netflix, e que mostra a crescente ameaça de extinção dos recifes de corais. O trabalho do laboratório onde ela atua pode ser visto em Gateslab.com .

Mariana também fala sobre a quebra do paradigma social. “Eu nunca fui a melhor da sala de aula, tudo o que vivo é resultado de estudo, dedicação, e é isso que tento passar para as pessoas. Todos podem chegar a uma USP. Fiz o Objetivo, por exemplo, depois de estudar para conseguir uma bolsa, que não foi integral, e daí, eu fui conversar com a diretora”, recorda-se.

Hoje, a bióloga é supervisionada pela inglesa Rute Gates, um dos cinco principais nomes das pesquisas sobre os corais e marinhas no mundo, e também escreve em blogs especializados e monitora estudantes interessados na área de pesquisa. A esses, ela deixa um e-mail de contato (mrds@hawaii.edu). “É a forma que tenho para melhorar o mundo, o que, acredito, é possível fazer”.

Com Trump, o ativismo cresce
A fala da bióloga Mariana Rocha de Souza modifica, quando a conversa mira para os corais, seu objeto de estudo de pesquisa no Havaí, onde reside há um ano. Lá, o trabalho pode começar e terminar na outra madrugada. Abaixo, ela fala sobre o aquecimento global, os prejuízos com a dizimação desse animal marinho, muitas vezes confundido com pedra, e as mudanças no ativismo ambiental, notado por ela, após a eleição de Donald Trump, o ferrenho crítico das pesquisas sobre a elevação dos termômetros na terra:

O que você pesquisa?
Estudo a simbiose existente entre os corais e algas microscópicas, as Zooxanthelas, que vivem dentro deles. Essas algas fazem fotossíntese e dão ao coral, o açúcar que o alimenta. Em troca, ele protege a alga. A nossa pesquisa tenta desenvolver corais mais resistentes ao aquecimento global. Busco determinar quais algas e bactérias estão em cada tipo de coral, na tentativa de descobrir se esses seres, mais resistentes, podem ser instalados nas espécies mais ameaçadas, para torná-las mais resistentes.

Por que os corais estão ameaçados?
Quando a temperatura da água aumenta, a alga que vive dentro dos corais se torna tóxica. O coral dispensa a alga, que produzia 90% da energia que ele precisa para viver, e começa a passar fome. Esse fenômeno se chama branqueamento dos corais. Se a temperatura da água não abaixa, o coral morre de fome. Tivemos três grandes picos de branqueamento de corais, em 1998, 2012 e 2016, em momentos de grande aquecimento das águas do mar. Novos episódios como esses podem reduzir ainda mais o número desses indivíduos, encontrados próximos dos trópicos, em regiões como Caribe, Flórida, Nordeste do Brasil, Havaí e Austrália. Estima-se que 50% dos corais do mundo tenham sido afetados nesses últimos anos. Apenas 1% do mar possui corais, mas esse 1% garante a sobrevivência de um quarto de todos os peixes marinhos. E esses peixes são responsáveis pela movimentação de uma economia anual estimada em US$ 380 bilhões (pesca, turismo, etc.).

A ciência tem um opositor de peso, o presidente Donald Trump, dos Estados Unidos. O que mudou após a eleição dele?
Percebo que, apesar do posicionamento dele, cresce o ativismo ambiental em diversas esferas, numa escala que não havia anteriormente. As pessoas têm falado mais sobre os reflexos negativos do aquecimento global, entidades estão mais vigilantes, e buscando meios, como plebiscitos, para promover mudanças de baixo para cima, do povo para o governo. É preciso saber o que é a realidade: e a realidade é que o mar está dois graus mais quente.

Quando termina o doutorado?
Cerca de 3 anos. Depois do doutorado, pretendo fazer o pós-doutorado.  Durante todo esse tempo quero continuar a estimular e monitorar outros estudantes a seguirem a carreira de pesquisador, a não desistirem de um sonho, como o meu, no passado. É possível, eu tive problemas, financeiros, de adaptação, mas estou vencendo. Pretendo continuar escrevendo blogs, visitando escolas, desmistificando a ciência, Essa é a maneira que tenho de melhorar o meu redor, o mundo.



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