Maria José Alves Franco, a 'Zezé Arouche' - O Diário - Mogi das Cruzes , Suzano e Região do Alto Tiete
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Maria José Alves Franco, a ‘Zezé Arouche’

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Zezé recorda dos tempos de uma Mogi diferente da atual. (Foto: Eisner Soares)

Zezé recorda dos tempos de uma Mogi diferente da atual. (Foto: Eisner Soares)

ELIANE JOSÉ
Quando vê a passagem do sol pela grande janela da sala do apartamento bem localizado, em frente à Praça do Shangai, e observa o encadeamento das torres de apartamentos que sobem cada vez mais para o céu, no Nova Mogilar, a mulher de 88 anos bem vividos, como a própria diz, lembra do avô Leôncio Arouche de Toledo recomendando: terreno do lado de baixo da linha ferroviária é charco, não compro. Intriga a mogiana nascida no casarão dos avós maternos, na Rua José Bonifácio, o espantoso crescimento da Mogi, que era um quadrado ao redor do Largo da Matriz, quando ela era criança e deu um susto daqueles nos pais, o fotógrafo e comerciante, Benedicto Alves dos Anjos, e Maria Apparecida Arouche Alves. O susto: sem contar a ninguém, a menina de 7 para 8 anos acompanhou uma amiga e foi ver a “charola”, cortejo da Festa do Divino Espírito Santo, que vinha da Ponte Grande para o Centro, atrás de um andor recheado de legumes, frutas, palmitos. Muitas lembranças mobilizam a percepção da professora aposentada Maria José Alves Franco, impressionada com as mudanças sociais e políticas desde o final da Segunda Guerra e a passagem do milênio, por quem não deixa de ler jornal “para não quer ficar para trás”. Ela se casou com Roberto Schmutzer Franco, teve três filhos, trabalhou durante 30 anos na educação, enviuvou e atende ao apelido de solteira, conhecido pelos alunos e pelos amigos também descendentes de centenárias famílias, que residiam nos casarões delimitados pele quarteto de igrejas: Matriz, Carmo, Rosário e Santuário Bom Jesus. Todos a chamam de Zezé Arouche, que hoje compartilha uma parte de sua história de vida com O Diário:

Dona Zezé, vamos pelo início: a família da senhora é uma das mais antigas da Cidade.
Sim, outro dia fui ao lançamento da galeria dos prefeitos e sete dos que estão lá têm alguma relação familiar por parte do meu pai, Benedicto Alves dos Anjos, ou de minha mãe, Maria Apparecida Arouche Alves, filha de dona Nenê, como era chamada minha avó, e de Leôncio Arouche de Toledo, tabelião em Mogi durante a primeira metade do século passado. Meu pai era filho de José Alves dos Anjos. Eu cresci no Centro, quando as ruas principais (José Bonifácio, Paulo Frontin e Coronel Souza Franco) demarcavam a Cidade; depois, não tinha nada. O Largo do Rosário era muito simples, as moradias eram todas de pessoas conhecidas, primos, tias, e outras famílias conhecidas. Na Paulo Frontin, tinha uma casa de ferro-velho, o consultório do dentista Lamartine, pai do Carlito, do Náutico, que ficava ao lado da casa do doutor Luis Rosa. Depois vinham as casa da pianista Iracema Brasil de Siqueira, da professora Jovita Franco Arouche, que era minha tia. Não tinha trânsito, ninguém tinha carro, havia simplicidade.

E onde passou a infância?
A nossa casa era um bangalô, na confluência das ruas Coronel Souza Franco e Dr. Corrêa. Nas esquinas, durante a Festa do Divino, as palmeiras que enfeitavam as ruas tinham mesmo o palmito, que depois era cortado e as pessoas levavam para casa. Na minha infância brincamos muito, os meus irmãos, Nabor e Fábio (falecido), os meus primos. Nos domingos, era como o Chico Ornellas, também meu primo, conta no jornal: todos iam para a casa da vó Nenê, na Rua José Bonifácio, onde eu nasci, almoçávamos e brincávamos, enquanto os mais velhos jogavam baralho, pif-paf, até o final do dia.

Como era o dia a dia?
Nós sempre tivemos quem ajudasse a mamãe em casa; então, não me lembro de ajudar na cozinha, por exemplo. Mas, íamos à escola, almoçávamos, era uma vida tranquila. Tudo muito simples. Uma vez, tinha 7 para 8 anos, uma amiga me chamou e fomos ver a charola, uma espécie de andor enfeitado de alimentos, que saía da Ponte Grande e vinha para o Centro, na Festa do Divino Espírito Santo. Ninguém sabia de mim, e todo mundo foi me procurar na casa dos vizinhos e eu lá, bem me divertindo. Era uma vida feliz. No feriado de 1º de Maio fazíamos piquenique na Serra, todos levavam o frango com farofa, os rapazes e moças se conheciam. Foi num 1º de Maio que conheci o meu marido, Roberto. Eu tinha 16 anos. No 1º de Setembro, havia os desfiles das escolas, e todos se preparavam para desfilar.

E logo casou?
Não, demorou. Minha mãe não queria muito, ele era um homem muito bonito, muito paquerado e também ciumento. Mas não namorei só ele não. Brigava e voltava, até que nos casamos. Eu tinha 23 anos e vivemos por 36 anos, até a morte dele, de leucemia.

E como foi o casamento?
Foi lindo. No Santuário Bom Jesus, porque naquele ano a parede da Matriz ruiu, e nós ouvimos a queda, acho que estávamos na casa da vó Nenê. Fez um barulho imenso, e disseram que não dava para arrumar. Então, não casei na Matriz.

E a festa?
Uma grande festa, porque eu tinha colocado no convite que os noivos receberiam os cumprimentos na igreja. Meu avô Leôncio, que foi meu padrinho de batismo, de formatura e de casamento, viu e mandou rasgar os convites. ‘Eu te dou a festa’, disse. O celebrante foi padre Roque Pinto de Barros, que era ‘linha dura’.

E já lecionava?
Eu queria fazer secretariado, mas eles (os pais) não deixaram. Então, fiz a escola normal, e depois gostei muito da sala de aula. Passei no concurso da Prefeitura, dei aula em um grupo escolar de Jundiapeba, depois na Vila Lavínia, e depois, já no Estado, lecionei durante 23 anos no Instituto Washington Luís, que existia para servir de laboratório para quem fazia a escola normal, que ia ser professor. Então, esse professor treinava dentro da sala de aula mantida na escola para isso. E sabe quantas disciplinas eram? Onze: canto, música, pedagogia, história, geografia, etc.



Quem foram seus alunos?
Não sei quantos, milhares. Encontro alguns, eles correm para me abraçar, dizem que não se esquecem, dizem que fui boa professora. O médico Zeno Morrone, o ex-prefeito Marco Bertaiolli, os da família, como meu filho Paulo. A escola era diferente. A professora olhava, dizia um “psiu” (repete o sinal, com o dedo indicador perto da boca) e bastava: a sala ficava em silêncio. A mãe dizia ao professor, ‘me conte o que ele fizer errado, que eu acerto em casa’. Hoje, é capaz de a mãe agredir o professor.

O que aconteceu para isso?
É uma resposta muito difícil. Acho que quando a professora começou a ser chamada de tia, é como se fosse um ‘quebra-galho’, e não alguém que está no comando de uma sala. Há outras coisas acontecendo, as mães não se ocupam mais dos filhos porque precisam trabalhar, então outras pessoas educam os filhos e há uma falta de respeito muito grande. Outro dia, eu estava na calçada e me deparei com uma moça, bem mais nova. Fiquei olhando, ela não me deu passagem. Antes, a preferência do canto era dada a quem era mais velho ou à mulher. Agora, as pessoas nem sabe disso.

Culpa do desenvolvimento?
Eu me assusto com Mogi, olho pela janela e não acredito na quantidade de prédios do lado de baixo da linha. Pareço ouvir meu avô dizer: “Terreno no lado de baixo da linha é charco, eu não compro’, e não comprava mesmo. E olha os arranha-céus ali, abaixo da linha, perto do Rio Tietê. Sou saudosista, das que não gosta que falem mal de Mogi. Só eu posso, e que gostava muito da Mogi do passado.

Cresceu para o bem, e para o mal…
Sou muito católica e quando vejo tantos moradores de rua penso: “Essas pessoas têm pai, têm mãe, onde estão?” Por isso rezo muito pela minha família, pelo futuro do meu bisneto, que acabou de nascer. Sou do Carmo (Igreja), desde a barriga da minha mãe, e vou muito ao Santuário do Bom Jesus, que fica mais perto. Não tenho medo de sair à rua, me fortaleci muito com a vida.

É mesmo?
Tive uma filha, a Roberta, quando o meu filho mais velho, Paulo, tinha 20 anos e já estava na primeira faculdade, de Biomedicina. Quando fiquei grávida, tive vergonha dos meus filhos, porque eu já estava com 43 anos. Meu marido disse, à mesa, temos uma novidade. E o meu filho retrucou: mamãe está grávida. Senti um alívio. Foi uma felicidade. Para o meu marido ela era tudo. Quando tinha 16 anos, ela foi comer uma pizza com os amigos, em frente à Prefeitura, e quando estavam voltando para o carro, com um amigo, os bandidos os pegaram. Todo mundo ficou horrorizado. Em 1989, ela foi assassinada por um menino de 16 anos. Eu sempre conto essa história, dou testemunhos nos encontros da Igreja. Sofri tanto naqueles dias, eu não estava em mim. Ao mesmo tempo, aquilo fortaleceu a minha fé, hoje eu não tenho medo de nada, porque acredito em Deus.

Dona Zezé, o que há após a morte?
Você quer mesmo que eu diga? Olha, eu converso com pessoas de qualquer religião, mas não há o que me tire a certeza de que vamos nos encontrar, que seremos ressuscitados. Fiz diversos cursos de Teologia, e tenho a minha crença.

A senhora vai sempre à missa?
Muito, à missa, às festas, fui catequista durante muitos anos, parei porque sou uma mulher com 88 anos. Como vou ensinar a esses jovens sobre Deus? Para eles, hoje, sou o passado. Mas não vivo alienada não. Leio muito porque não quero ficar para trás. É em Deus, também, que me fortaleço para aceitar a velhice, que virá.

Mas, a senhora é ativa.
Sempre fui, depois da aposentadoria sempre atuei no voluntariado, na Santa Casa. Aliás, tem um caso por causa disso.

Qual?
Depois de me casar, eu morei numa casa na Rua Coronel Souza Franco. Um dia, uma amiga chegou, por volta da hora do almoço, conversamos e quando ela saiu, na varanda tinha algo. Ela empurrou e viu um bebê que deixaram na minha porta. Foi um susto imenso, a minha filha, Roberta, tinha 3 anos, e eu ainda dava aula. Levamos para a Santa Casa, e logo uma família de São Paulo, que leu sobre a história no jornal, entrou em contato com o juiz e a adotou.



E hoje, a senhora permanece ativa?
Vou à academia em frente de casa, e tenho as amizades, amizades de toda a vida, como de Dóris Salustiano, Terezinha Alves Cury e muitas outras, aqui no prédio e fora daqui. No prédio, nós nos encontramos toda tarde para fazer crochê. Quando eu penso, não vamos ter o que falar, e nada. Temos muitos assuntos ainda para lembrar e falar (toca o telefone e uma amiga a convida para ir à novena da Festa do Carmo, que termina hoje, ela ri) Sempre tem alguém me convidando para ir à missa, e, se não tiver, vou sozinha.

Conheceu o mundo?
Muitos países, em viagens longas. Depois que o Roberto faleceu, encontrei dólares guardados dentro dos livros, um dinheiro que eu desconhecia e usei nessas viagens, para Europa, Turquia, Grécia, América do Sul.

Feliz mesmo?
Sabe o que eu faço? Sou muito certa com tudo. Uma minha amiga diz que sou sem educação, mas sou verdadeira, é isso. Quando alguma coisa dá certo, muito bem, e quando dá errado, eu contorno aquilo que me desagrada e sigo. Eu olho para trás e vejo: fui feliz, tenho uma casa, amigos, não faço, como muitos, alarde na sociedade, que se perde no consumo, no materialismo. Tento passar, para os filhos e netos, que o mundo precisa ser mais do que a matéria, precisa ser humano.

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