Marcos e Cláudia Regueiro, os festeiros de Santo Ângelo - O Diário - Mogi das Cruzes , Suzano e Região do Alto Tiete

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Marcos e Cláudia Regueiro, os festeiros de Santo Ângelo

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Maria Clara, Laura, Cláudia e Marcos Regueiro estão no comando da tradicional desta de Santo Ângelo. (Foto: Divulgação)

Maria Clara, Laura, Cláudia e Marcos Regueiro estão no comando da tradicional desta de Santo Ângelo. (Foto: Divulgação)

CARLA OLIVO
O casal Marcos Roberto Regueiro e Cláudia Vidal Regueiro cumpre, ao lado das filhas Maria Clara, 20 anos, e Laura, 16, uma tarefa especial este ano. A família é festeira da tradicional Festa de Santo Ângelo, marcada para os dias 5 a 7 de maio, na capela batizada com o nome do padroeiro e construída em 1738 pelos carmelitas, em Jundiapeba. Ele nasceu no Distrito, onde fez os estudos até o colegial na rede pública e viu os avós paternos (Irene e Antônio Regueiro) e maternos (Cecília e José Siqueira), os pais Augusto Ribeiro e Joaquina Siqueira Ribeiro e os irmãos Augusto, Francisco e Renata serem festeiros de Santo Ângelo. Cláudia é de Recife (PE), estudou o Magistério no Colégio Batuíra, em Poá, e conheceu Marcos quando os dois cursavam Direito na Universidade de Mogi das Cruzes (UMC). Eles se casaram na Capela de Santo Ângelo, há 21 anos, têm forte envolvimento com os encontros de casais da Igreja do Carmo, onde vão às missas todos os domingos, com exceção do terceiro de cada mês, quando a celebração acontece na secular Capela de Santo Ângelo. Na entrevista a O Diário, o atual secretário municipal de Gestão e a diretora do Pró-Escolar da Prefeitura de Mogi contam histórias vividas na Cidade:

Quais lembranças vocês guardam da infância?
Marcos – Nasci em Jundiapeba, onde passei a infância e juventude na Rua Professora Lucinda Bastos, que era de terra, onde jogávamos bola, andávamos de carrinho de rolemã e aprendi a fazer balão e pipa. Tivemos uma infância muito saudável e sem os medos da sociedade de hoje. Meu pai, hoje já falecido, trabalhou na Móveis Waizer. Minha mãe, que está com 74 anos, na adolescência trabalhou na antiga Hoechst, em Suzano, mas depois cuidou da casa e dos oito filhos (Augusto, Antonio, Francisco, Marcos, Rita, Renata, Regina e Ângelo). Além da minha, Jundiapeba tem famílias tradicionais como os Branco e Borges.

Cláudia – Meus pais são José Batista Celestino e Maria José Vidal Celestino. Quando criança, morava em São Miguel Paulista e a minha maior lembrança dessa época, sem dúvida, era de brincar com os meus irmãos Charles, Vanessa e Rodrigo na rua, até a noitinha, e comer fruta no pé (ameixa, amora, jabuticaba). As coisas pareciam mais fáceis.

Onde foram os estudos?
Marcos – Fiz o primário na escola Professor Paulo Ferreira Massari, que ficava do lado de cima da Avenida Altino Arantes. Ali havia muitos acidentes na travessia de pedestres, então a dona Tereza Geraldi de Almeida, a dona Terezona, que era uma líder de bairro, se mobilizou com a comunidade e em 1982 foi inaugurada a Josephina Najar Hernandez, onde fiz o ginásio, do outro lado da Avenida. Já no colegial, voltei para a Paulo Massari.

Cláudia – Estudei o primário e o ginásio em escola pública, depois cursei o Magistério no Colégio Técnico Batuíra, em Poá. Comecei a dar aulas para a Educação Infantil e prestei vestibular na mesma época para o curso de Direito na UMC. Fui aprovada e comecei a frequentar as aulas. Foi lá que conheci o Marcos, começamos a namorar e nos casamos quando estávamos no segundo ano. Prestei o concurso para o cargo de professora em Mogi e, quando comecei a lecionar no Ensino Fundamental, iniciei o curso de Pedagogia. Depois, fiz pós-graduação em Psicopedagogia e Educação Especial e Educação Inclusiva e também cursos de extensão para atender alunos autistas.


E as distrações na juventude?
Marcos – Frequentava o Cine Avenida e os bailes do Kanekão.

Cláudia – Reunir os amigos, assistir a filmes, ouvir música bem alta e frequentar as aulas de teatro no colégio. Às vezes, íamos aos bailes no Clube Concórdia, em Poá.

Quando vocês começaram a trabalhar?
Marcos – Aos 15 anos, comecei a trabalhar, por intermédio do soldado Hildo, pela Guarda Mirim de Mogi, como office-boy do vereador Luiz Teixeira, que me incentivou muito. Mas antes catava até papelão na rua para ajudar minha mãe. Foi na Câmara que comecei a gostar do Direito. Depois de 2 anos, fiz concurso na Prefeitura e, em 1987, comecei como escriturário, na época do prefeito Machado (Antônio Carlos Machado Teixeira). Depois fiz outros concursos, passei a encarregado de setor, chefe de divisão, diretor do Departamento de Rendas Imobiliárias, procurador jurídico na administração tributária e, desde 2011, sou secretário de gestão da Prefeitura. O Marcus Melo é o sétimo prefeito que acompanho.



Cláudia – Trabalhei no Cartório em Poá. Por ser uma “exímia datilógrafa”, tive a minha primeira oportunidade de trabalho aos 15 anos. Fui atendente em papelaria, no Drogão, e depois trabalhei muito tempo no comércio em São Paulo, com equipamentos eletrônicos e telefonia celular. Em 1993, fiz concurso na Prefeitura de Mogi, na época do prefeito Chico Nogueira (Francisco Ribeiro Nogueira), e em 1994, dei aulas em uma escola de Educação Infantil que hoje já não existe mais. Hoje sou diretora em um dos equipamentos da Secretaria Municipal de Educação, o Pró-Escolar, que atende aos alunos que apresentam necessidades educacionais especiais.

Como teve início o envolvimento com a Festa de Santo Ângelo?
Marcos – Teve início na infância porque minha família sempre foi muito ligada à capela. Começou com a minha avó Cecília, que veio de Cunha, aprovada em concurso público para ajudante de serviços gerais na lavanderia do Hospital Santo Ângelo, antigo leprosário e hoje Dr. Arnaldo (Pezzuti Cavalcanti), onde trabalhou 32 anos, se radicou em Jundiapeba, e participava da festa. Toda aquela área era chamada de Vila Santo Ângelo e a Estação Jundiapeba também levava o nome do santo.

Cláudia – Quando começamos a namorar, o Marcos me apresentou a Capela, pois a minha sogra, dona Joaquina, sempre foi muito devota e, além de frequentar as missas lá, sempre ajudou na Festa de Santo Ângelo. Eu e o Marcos nos casamos lá, com o padre Dimas Bueno Vasconcelos. Foi uma cerimônia linda e a nossa filha mais velha, a Maria Clara, foi batizada na Capela.

Há quantos anos a festa é realizada?
Marcos – Ela é secular, meus avós paternos falam de ter participado da festa ainda crianças, quando vinham charreteiros e carreteiros de outras cidades. Tinha até matadouro lá para fazer comida para todos e também local para as pessoas ficarem abrigadas. Minha família é predominantemente católica e me recordo que no mês de maio, minhas avós, mãe e tias faziam doces para a festa, que acontecia sempre no final de semana, mas elas iam para lá já na quarta-feira por conta dos preparativos e nós aproveitávamos para brincar na enorme área ao redor da Capela.


De que forma vocês participavam da festa antes de assumirem o comando do evento?
Marcos – Minha mãe sempre foi totalmente envolvida no preparo dos doces e minha filha mais velha está no mesmo caminho. Ela é uma mulher à frente do seu tempo, ficou viúva aos 42 anos de idade, com oito filhos e se dedica muito à família e à igreja. Nunca se incomodou se ficássemos até um mês sem ir à casa dela, mas a única obrigatoriedade que os oito filhos têm durante o ano é estar na Festa de Santo Ângelo. Como há 200 pessoas envolvidas na organização, barracas e na parte religiosa, é preciso preparar alimentação para todas e minha mãe também ajuda na cozinha. As irmãs, cunhadas, tias, primas, todas são extremamente envolvidas com a festa e também ajudam no preparo do afogado servido gratuitamente no domingo para 3,5 mil pessoas. Além disso, no dia 1 de maio, homens e mulheres fazem o mutirão de capinação do terreno e limpeza da Capela. A festa começa em 5 de maio, Dia de Santo Ângelo, com missa às 19h30. No sábado, às 15 horas, acontece a oração do terço e a carreata com a bandeira e o mastro saindo de casa, no Mogilar, até a Capela. Lá haverá a missa, levantamento do mastro e quermesse. No domingo, tem caminhada às 8 horas, saindo da Alameda Santo Ângelo, missa às 10 horas com o frei Evaldo Xavier Gomes, distribuição de afogado e procissão, celebração da eucaristia e quermesse. Já no dia 8, ao meio-dia, terá a missa de ação de graças por intenção dos colaboradores da festa.

Cláudia – Sempre que pude lavei a louça nos domingos da festa, quando servimos o afogado gratuitamente a partir do meio-dia. São muitos pratos e talheres para serem lavados. A gente perde até a conta de quantos já lavou!


Vocês esperavam ser festeiros?
Marcos – Existe uma lista de festeiros até 2020, quando será meu irmão Augusto. As pessoas vão se escrevendo. No meu caso, na festa do ano passado, o frei Gabriel (Haamberg, diretor da Capela de Santo Ângelo) comentou com minha cunhada que não tinha festeiro para 2017, apesar de já haver inscritos para 2018, 2019 e 2020. Aceitamos de pronto o convite e sentia que uma hora isso aconteceria. Recebemos a tarefa como um presente, de braços abertos, e começamos os preparativos logo depois do balanço e prestação de contas da festa de 2017. Tem café o ano todo e nos dias da festa, além do preparo dos doces, salgados e afogado, então, buscamos doações para que a Igreja não fique com estes custos. Não temos ainda uma finalidade específica da renda deste ano, mas precisa ser feito o reparo do telhado da igreja, construída em 1738 pelos carmelitas, com telhas de barro que dizem ter sido feitas nas coxas por regime escravista.

Cláudia – Nunca tivemos coragem de pedir para sermos os festeiros, mas no ano passado, no primeiro dia da Festa de Santo Ângelo, a minha cunhada Luciene (casada com o Augusto, irmão mais velho do Marcos) nos convidou. Ficamos um pouco preocupados se daríamos conta, mas não podíamos recusar este pedido!


Qual a importância das filhas também se envolverem na festa?
Marcos – Representa a continuidade da vocação religiosa, do conceito de família e espiritualidade. É preciso ter uma iniciação religiosa, principalmente por causa deste cenário atual, tem que ter regra, princípio religioso e acreditar em algo.



Cláudia – Participar em família na Capela para nós é sinônimo de fé, amor e gratidão. Não me canso de agradecer a Deus e a Santo Ângelo pelas minhas filhas Maria Clara e Laura.


A família já recebeu graças de Santo Ângelo?
Marcos – Meu irmão Antônio apresentou uma deficiência física, tipo paralisia, e minha mãe fez uma promessa a Santo Ângelo. Ela o levava ao Hospital das Clínicas de São Paulo duas vezes por semanas para fazer fisioterapia e hoje ele não tem sequelas. Depois, recebemos uma graça para minha filha Maria Clara e, para agradecer, fomos até a Capela a pé e contei para ela a história do Santo Ângelo, que é conhecido como santo da chuva. Os carmelitas têm relatos de que, como Mogi no século passado era muito seco, quando a comunidade precisava de chuva trazia a imagem para a Igreja do Carmo e, depois de dois a três dias, chovia, porque o santo reclamava para voltar à Capela. Diz a lenda que um dia, o esqueram no Carmo e quando perceberam, a imagem teria aparecido na Capela com os pés cheios de barro porque teria ido a pé até lá. Também dizem que ele é o santo do sol porque no alto da Capela tem uma janela e quando o sol nasce, os primeiros raios batem no altar, onde fica a imagem dele. No final dos anos 80, a original, de 1738, foi roubada, e hoje temos uma réplica de gesso.

Cláudia – A primeira graça foi casar com o Marcos, que é o meu grande amor. A segunda, recebemos em família, quando a Maria Clara nasceu com uma diferença no quadril e precisou ser acompanhada pelo pediatra e ortopedistas. Sempre pedimos a Deus e a Santo Ângelo que não ficasse com sequelas. Quando ela tinha 6 anos fomos caminhando da casa da minha sogra em Jundiapeba até a Capela de Santo Ângelo, ela não reclamou e seguiu curada para assistirmos à missa. O Marcos é bastante conhecido em Jundiapeba e as pessoas passavam na Estrada de Varinhas, viam os dois caminhando e ofereciam carona. Quando ele explicava que estávamos agradecendo a Santo Ângelo pela graça alcançada, as pessoas se emocionavam e até choravam. Foi muito emocionante!


Qual a expectativa para a festa deste ano?
Cláudia – Que seja uma linda e abençoada festa, que tenhamos a oportunidade de praticar o amor ao próximo e fortalecer a nossa fé.

Como é a programação de atividades na Capela de Santo Ângelo?
Marcos – Há atividade durante o ano todo, encontros de casais, formação de catequistas e de ministros da eucaristia, além de retiros espirituais. As missas são celebradas todos os terceiros domingos do mês, às 10 horas, na Capela vinculada à Igreja do Carmo.

O que vocês fazem para se distrair?
Cláudia – Gostamos muito de estar com a minha família, sair juntos para passear e de ficar em casa também.


Era possível imaginar este crescimento que Mogi vive hoje?
Marcos – Mogi é referência na Região, principalmente nas áreas de Saúde, Educação e Gestão Pública. De 20 anos para cá, a Cidade deu um salto enorme e nossa qualidade de vida aumentou muito.

Cláudia – A cidade sempre foi muito boa para se viver e acreditei que o crescimento iria acontecer, mas não de uma maneira tão rápida como estamos presenciando. Sou servidora pública estatutária da Educação, tenho orgulho do trabalho que realizamos com as nossas crianças. Esse é um dos motivos pelo qual acredito que tantas famílias queiram morar em Mogi das Cruzes.

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