Lembrando um sacerdote - O Diário - Mogi das Cruzes , Suzano e Região do Alto Tiete
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           CHICO ORNELLAS

Lembrando um sacerdote

Chico Ornellas

Em 1943, padre Lino dos Santos Brito reuniu um grupo de paroquianos e foi ter à Basílica de Nossa Senhora Aparecida. Dentre eles, na foto do acervo de Benedicto Alves dos Anjos estão (da esquerda para a direita, em pé, depois da árvore): Pedro Miguel. Donato Porceli; Dedé Silveira, Ulisses Franco (último de terno preto). Sentados: Beleza, Cyro de Aragão Franco, Leôncio Arouche de Toledo, padre Lino dos Santos Brito, Galdino Pinheiro Franco, João Cardoso Pereira. Agachados: Milton Cury, Álvaro Silveira, Wilson Cury, Jairo de Freitas e Dadá.

Em 1943, padre Lino dos Santos Brito reuniu um grupo de paroquianos e foi ter à Basílica de Nossa Senhora Aparecida. Dentre eles, na foto do acervo de Benedicto Alves dos Anjos estão (da esquerda para a direita, em pé, depois da árvore): Pedro Miguel. Donato Porceli; Dedé Silveira, Ulisses Franco (último de terno preto). Sentados: Beleza, Cyro de Aragão Franco, Leôncio Arouche de Toledo, padre Lino dos Santos Brito, Galdino Pinheiro Franco, João Cardoso Pereira. Agachados: Milton Cury, Álvaro Silveira, Wilson Cury, Jairo de Freitas e Dadá.

O semblante era tranquilo; os gestos o confirmavam. Atencioso, ele caminhou pelos jardins do Seminário Nossa Senhora da Assunção, no bairro paulistano do Ipiranga, e veio ao meu encontro. Cumprimentamo-nos e seguimos de volta para o seu apartamento. Atravessamos os mesmos jardins que ele havia percorrido. Mostrou-me uma cadeira em volta a uma mesa redonda. Cobria-a uma toalha de renda branca. Começamos a conversar. Faz 6 anos que, pela última vez, revi monsenhor Lino dos Santos Brito. Ele tinha 88 anos de idade. Morreu há 1 ano, aos 93 anos. Foi-se um referencial da Igreja Católica em Mogi das Cruzes. Padre Lino, como ainda era conhecido, tinha a noção exata de seu papel. Nem mais, nem menos. A noção exata.

Padre Lino chegou a Mogi das Cruzes no início dos anos 1940 para assumir a Paróquia Matriz de Santana. A cidade tinha pouco mais de 30 mil habitantes e limitava-se, a mancha urbana, ao quadrilátero formado pelas ruas Tenente Manoel Alves; Avenida Pinheiro Franco, Rua José Bonifácio, Rua Dr. Correa e Rua Dr. Ricardo Vilela. Dentro desse perímetro estavam as ruas pavimentadas com paralelepípedos. O resto todo era de terra.

De pronto, o novo vigário estabeleceu relações com a comunidade católica da cidade. Uma das primeiras pessoas que conheceu foi dona Alice de Souza Franco, beata devota de São José, que todo dia 19 de março o convidava para celebrar, na capela de sua residência na Rua José Bonifácio, a missa em louvor ao santo de sua devoção. Com todos os outros católicos da cidade também padre Lino estabeleceu contato. Era o consultor e o conselheiro, era o amigo que se reunia na casa de um e de outro para falar do que fosse.

“Mogi das Cruzes era uma cidade muito pacata, muito calma; sem qualquer juízo de valor, era uma cidade típica de aposentados”, disse-me há seis anos aquele senhor de estatura mediana, em volta da mesa redonda coberta por uma toalha de renda em seu apartamento do Seminário Nossa Senhora da Assunção, no Ipiranga. Ele relembrava sua passagem de quase seis anos pela Paróquia de Santana.

Ocupava-se, afora os afazeres rotineiros, da missa das 11 horas de domingo na Matriz de Santana. Sim, porque a das 10 horas dos domingos era na Igreja do Rosário, na Rua Dr. Deodato Wertheimer. Padre Lino celebrava em Latim, de costas para os fiéis e de frente para uma das maiores relíquias do patrimônio histórico que esta cidade já teve. E da qual abdicou. Era o altar-mor, entalhado em madeira maciça e decorado a ouro. Que, segundo Germain Bazin, em “L’Architecture Religieuse Baroque au Brésil”, data da metade do século XVIII. Riquíssimo. Tão rico que os párocos da Igreja Nossa Senhora do Brasil, em São Paulo, correram adquiri-lo quando a matriz antiga de Mogi ruiu, no início da década de 1950 e seus administradores abriram mão do que hoje é orgulho para os católicos da região dos Jardins, na Capital. Nessa época, padre Lino já não estava em Mogi. Havia transferido-se para a Paróquia de Santa Cecília, em São Paulo, onde ficaria até a sua aposentadoria, no final dos anos de 1970.

Não sem antes deixar na cidade o exemplo de um sacerdote irrepreensível. Disso é prova a Creche de Santana, que ele fundou e a cuja instituição legou as bases de sua perenidade. “Sim, várias vezes tentaram me cooptar para a política”, dizia-me ele no Seminário do Ipiranga. “Mas não era possível, são atividades inconciliáveis, o sacerdócio e a política”.

Mesmo afastado da Cidade, padre Lino nunca se afastou dos amigos que fez na Cidade. Desde sempre. Era comum, pároco em Santa Cecília, função que lhe conferiu os graus de cônego e monsenhor, ser procurado por antigos fiéis mogianos. Filhos de casais que ele celebrara, procuravam-no para celebrar as próprias bodas. Foi assim, por exemplo, com o casal Kalil Rocha Abdalla e Ana Maria Malhado Arouche, ela filha do dr. Francisco Arouche de Toledo e de d. Sylvia Malhado Arouche. Ou, então, de casais celebrados por ele que o procuravam para a missa de Bodas de Ouro, como Aurora e Anésio Urbano. Ou de batizados por ele que o procuravam para batizar seus filhos. Como eu, que fui ao seu encontro para o batizado do caçula Frederico. Nesta ocasião, padre Lino lembrou-se que celebrou o casamento de meus pais, em Aparecida, e que, já afastado de Mogi, visitou minha mãe na Maternidade São Paulo (Rua Frei Caneca), onde nasci. “Disse a Doda, sua mãe, que seria seu padrinho; fico contente agora ao batizar seu filho”.

Na Paróquia de Santa Cecília, onde permaneceu por cerca de 30 anos, padre Lino conseguiu o que muitos não conseguiram em Mogi: preservar um patrimônio histórico. A atual Igreja de Santa Cecília, que tem um dos mais ricos acervos da arte sacra paulistana, com obras de Benedito Calixto e Oscar Pereira da Silva, carecia de reforma e restauração nos anos de 1970, quando das obras do metrô de São Paulo. Com a colaboração responsável do consórcio que tocava as obras, foi feito um levantamento completo da construção. Após a inauguração do metrô, seus empreiteiros cuidaram da restauração da igreja. Mas não foi só. Ainda em Santa Cecília, padre Lino fundou e dirigiu, por muitos anos, a Pia União das Filhas de Maria. Isso antes da aposentadoria, durante a qual integrou o Conselho de Presbíteros da Arquidiocese de São Paulo.



Discreto como convém a um sacerdote irrepreensível, padre Lino permanecia recolhido à sua aposentadoria. Sobre sua morte não houve qualquer manifestação da Diocese de Mogi das Cruzes, tampouco da Paróquia Catedral de Santana. Padre Lino, nascido em l910 em Bom Jesus do Pirapora, morreu dia 19 de junho de 2003 em São Paulo.

CARTA A UM AMIGO
Era uma vez um chargista…

Pois é, meu caro Jair

Temos vários amigos em comum e aqueles que o conheceram há mais tempo e dividiram com você os bancos escolares, nunca se negaram a contar histórias de suas irreverências juvenis. Outras histórias, de irreverências mais maduras, quem as contava eram o ex-ministro das Minas e Energia e também ex-presidente da Petrobrás, Shigeaki Ueki. Shigeaki pagou seus primeiros estudos de segundo grau, no Liceu Braz Cubas, graças ao emprego que tinha no Banco Moreira Salles, agência de Mogi das Cruzes então gerenciada pelo sr. Antonio Argentino. Depois, fazia dupla com Monsores na Faculdade de Direito da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

Pois você, que antes de dirigir uma bem sucedida banca de advocacia em Mogi, assumir uma secretaria da Prefeitura local e cuidar dos interesses jurídicos da Universidade de Mogi das Cruzes, teve algumas incursões pela imprensa. Enfim, em 1975, decidiu retornar ao Diário de Mogi. Desta vez não como secretário de redação, cargo que assumira em 1957 quando da fundação do jornal. Mas como chargista.

Lembro-me bem, meu caro. Você fez algumas experiências, descobriu que os traços ensaiados na juventude estavam ainda melhores e saiu-se a desenhar. Um de seus personagens preferidos era o prefeito da época, Sebastião Cascardo. Você acompanhava, como poucos, os acontecimentos da Cidade e, se houvesse enchente, lá vinha com o timoneiro Cascardo na popa de um barco naufragando; se Cascardo ameaçasse denunciar alguém aos órgãos de segurança, novamente surgias seus traços com o personagem de longo dedo em riste… e engessado. Tudo com um humor crítico apurado.

Para auxiliá-lo nas ideias, havia um repórter novato do Diário, Luiz Vita. Aluno do curso de Jornalismo na Universidade de Mogi das Cruzes, Vita hospedava-se em um quarto do seu escritório de advocacia na Rua Isabel de Bragança, vizinho de parede da residência do prefeito. Formado, Vita deixou o jornal local e teve algumas passagens por grandes agências de notícias e revistas.

No início de 1976, quando começou a esquentar a campanha para outra eleição municipal, surgiu na Cidade boletim anônimo mostrando uma charge com dois personagens: um ventríloquo e seu boneco ao colo. O ventríloquo tinha os traços de Waldemar Costa Filho; o boneco, de Sebastião Cascardo. Tudo com cara, traços e complementos das linhas de Jair Monsores.

Você garantiu até à morte que não fez a charge. Por via das dúvidas, nunca mais se meteu a chargista. Sabe de uma coisa? Até hoje o jornal lamenta a perda de seu traço.



Um grande abraço do

Chico

O advogado Jair Monsores foi o primeiro editor-chefe do Diário de Mogi.

FLAGRANTE DO SÉCULO XX

RUA IPIRANGA – A residência da família Mascarini, na Rua Ipiranga foi, durante a primeira metade do século passado, uma das mais aprazíveis moradias de Mogi. Era uma chácara, na altura em que a Ipiranga cruzava com a Rua Braz Cubas

RUA IPIRANGA – A residência da família Mascarini, na Rua Ipiranga foi, durante a primeira metade do século passado, uma das mais aprazíveis moradias de Mogi. Era uma chácara, na altura em que a Ipiranga cruzava com a Rua Braz Cubas

QUEM É
chico-lopes
IMIGRANTE – Francisco Ferreira Lopes foi um dos pioneiros da imigração portuguesa a Mogi, no início do século passado. Veio sozinho, começou a trabalhar como pedreiro e logo fundou a sua Madeireira Santana, por décadas a principal fornecedora da portas e janelas para as construções da Cidade. Saíram de suas máquinas as portas da Catedral de Santana. Com o irmão mais jovem, Carlos Alberto Lopes, deu início a uma dinastia política que dominou o cenário local até o final dos anos de 1960. Morreu em março de 1960, tinha 75 anos.

O melhor de Mogi

A agricultura. Desde que os imigrantes japoneses ocuparam a área rural de Mogi, sua atividade tem-se mantido. Desenha ainda hoje uma importante face do perfil da cidade.

O pior de Mogi

A situação atual da cidade no cenário estadual e nacional. Mogi está fora do mapa. A ponto de as pesquisas eleitorais encomendadas pelos principais jornais não a incluírem.

Ser mogiano é….

Ser mogiano é… chamar o chanceler Manoel Bezerra de Melo, fundador da Universidade de Mogi das Cruzes, de “Padre Melo”

www.chicoornellas.com.br

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