Faysa Daoud, O ‘anjo da guarda’ dos refugiados - O Diário - Mogi das Cruzes , Suzano e Região do Alto Tiete
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Faysa Daoud, O ‘anjo da guarda’ dos refugiados

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CARLA OLIVO
Nascida em Amã, na Jordânia, Faysa Daoud passou a infância e juventude refugiada com os pais, os palestinos Ahmad Daoud e Mariam Ibrahim, e os 10 irmãos no campo do Exército, onde o patriarca da família conseguiu abrigo e trabalho após deixar a terra natal em pleno conflito, no ano de 1948. Lá, estudou do primário ao segundo grau completo e só depois de muitos anos viu a família se mudar para a casa simples, mas ainda enfrentar várias dificuldades. Aos 17 anos, Faysa se casou com o construtor e comerciante de pedras preciosas Husein Arman, também palestino, mas que morava no Brasil. Foi assim que chegou a Mogi das Cruzes, embora contra a vontade, onde enfrentou desafios como aprender o português, viver longe dos pais e irmãos, se adaptar a novos costumes, cultura, alimentação e clima. Mas aqui a situação de vida era bem diferente e, com a ajuda das empregadas domésticas que teve na época começou a falar o novo idioma. Logo também fez amizades, passou a participar das atividades da colônia árabe, com forte representatividade em Mogi, e a gostar da Cidade. Atuou no comércio de roupas por quase três décadas, nas lojas Confidência e Jeans.Com e ainda hoje ajuda o filho, Jamal, na Scudo Uniformes Profissionais. Em 2009, foi uma das fundadoras do grupo de apoio a imigrantes em situação social de risco, vindos de regiões mundias em conflito ou catástrofe natural, que deu origem à Organização Não Governamental (ONG) Refúgio Brasil – da qual é presidente -, responsável por ajudar estas pessoas com necesssidades de moradia, condições básicas de saúde e integração social. Na entrevista a O Diário, Faysa conta histórias vividas na Cidade:

A senhora nasceu na Jordânia. Quais as recordações de sua infância?
Tive uma infância marcada por inúmeras dificuldades. Sou filha de refugiados palestinos que, em 1948, foram para a Jordânia e ficaram em um campo do Exército, onde meu pai trabalhou. Na época, meu irmão mais velho, Mahmod, tinha 2 meses. Naquela correria da perseguição da guerra, no meio de um monte de gente fugindo, minha mãe o derrubou e meu pai chegou a falar para deixá-lo para trás, mas ela voltou e o pegou no colo. Foi assim que eles foram para a Jordânia, onde eu e meus outros irmãos (Zaha, Wasfia, Nabil, Mohamad, Kamalta, Madl – hoje falecido -, Jehad e Maha) nascemos. Durante muito tempo, enfrentamos dificuldades a ponto de passarmos necessidade e vontade, porque tínhamos apenas o básico para sobreviver. Ficamos neste campo do Exército vários anos, onde estudei do primário até o equivalente ao segundo grau completo, até que meu pai conseguiu comprar uma casa simples, mas ainda assim vivemos com sacrifício porque a família era numerosa e a situação bastante complicada para os refugiados.

Por que a vinda para o Brasil?
Em 1979, aos 17 anos, me casei e vim para cá. Meu marido, que era da mesma região da Palestina da minha família, já estava no Brasil desde 1959. Ele tinha vindo para cá estudar e trabalhar como piloto de avião. Na época que voltou para lá, estava com 34 anos e queria se casar. Como nossas famílias eram amigas, elas arrumaram o casamento. Mas eu não o conhecia, tinha medo de vir para cá e não queria deixar meus pais e irmãos na Jordânia. Não teve jeito. Nós nos casamos lá e cheguei aqui já grávida, estranhando tudo, principalmente o clima e a comida. Não sabia falar nada em português, mas como tinha empregadas em casa, fui aprendendo o idioma com elas.

Como era a Cidade?
Mogi era uma cidade muito tranquila e segura. Todo mundo se conhecia e acolhia bem as pessoas vindas de fora, como ainda acontece hoje. Mas no começo, como não estava acostumada a viver longe da minha família, queria voltar a qualquer custo. A comunicação era difícil. Para falar com eles por telefone, tinha que pedir a ligação à telefonista e esperar um dia inteiro para que ela conseguisse colocá-los na linha. Isso era complicado. Não é como hoje, que temos telefone em casa, celular, internet, Facebook, WhatsApp… Tudo era muito mais complicado. Eu escrevia cartas, mas nunca recebia resposta. Comecei a achar que minha família não gostava mais de mim e fiquei triste. Só depois de algum tempo é que meu marido me contou que ele lia as cartas antes de enviá-las e as rasgava, porque nelas eu escrevia que queria voltar e ele não podia deixar que minha família lesse aquilo. Fiz amizades aqui, passei a participar das atividades da comunidade árabe na Cidade, que já tinha grande representatividade, a gostar de Mogi e a me acostumar com tudo por aqui. Mas fiz questão de preservar a cultura, religião e tradições árabes, por isso meus filhos estudaram o idioma com a professora Fátima (Mohamad Shaker Agha). E estes costumes também foram transmitidos a meus netos, noras e genros.

A senhora trabalhou em Mogi?
Estive no comércio por quase 30 anos, com a Loja Confidência, na Rua José Bonifácio, e depois na Jeans.Com, na Princesa Isabel de Bragança. Hoje, ainda gosto de ir à loja do meu filho, Jamal, que trabalha com uniformes profissionais, porque adoro este contato direto com o público. Acho que também foi por isso que, embora o português seja uma língua difícil, consegui aprender em pouco tempo.

Quando teve início seu trabalho com os refugiados?
Em 2007, Mogi, São Paulo e outras cidades do Brasil receberam vários refugiados palestinos em uma programação da ONU (Organização das Nações Unidas), que garantia apoio de moradia e sobrevivência durante dois anos a estas pessoas. Mas depois deste período, elas ficaram totalmente perdidas. Então, a comunidade, o presidente da Sociedade Islâmica de Mogi das Cruzes, Mohamad Saada, que sempre nos ajudou, e várias outras pessoas que viam as n e c e s s i d a d e s destas famílias, se uniram. Foi então que eu, o Imad Orra, da TC Móveis, e o Ahmad Saad, criamos um grupo de apoio para buscar ajuda da população mogiana a estes refugiados. A demanda cresceu demais, nos sobrecarregou e precisamos pensar em algo maior para que pudéssemos fornecer mais ajuda, por isso surgiu a ONG Refúgio Brasil.

Hoje, quem ajuda a ONG?
São pessoas físicas da comunidade, a Maternidade Mogi Mater, onde nascem vários filhos de refugiados, além do pessoal da Capital. A ONG ainda vai completar 2 anos com CNPJ em fevereiro de 2018, para passar a ter direito a recursos da Prefeitura e dos governos estadual e federal. Então, conta apenas com a ajuda da comunidade para oferecer auxílio como moradia, alimentação e assistência médica, entre outros, a refugiados que estão em Mogi, em outras cidades da Região do Alto Tietê e também na Capital. Atualmente, atendemos 452 pessoas, com todo tipo de ajuda, sendo 228 de Mogi, entre refugiados da Palestina, Síria, Egito, Haiti e Paquistão.

Quais as principais dificuldades enfrentadas por estas famílias?
Elas enfrentam os mais diversos tipos de dificuldades que se possa imaginar, principalmente porque já vêm de uma história de sofrimento, de um cenário de guerra e perseguição. Mas acredito que o principal obstáculo seja o idioma. Como não sabem falar nada em português, a comunicação é um grande empecilho para tudo, especialmente na hora de conseguir emprego. E se em época de crise econômica está difícil para o brasileiro ter um trabalho imagine para quem vem de fora. Esta situação fica ainda pior no caso dos refugiados, porque eles chegam aqui e precisam regularizar toda a documentação, o que na maioria dos casos demora muito tempo para ser resolvido.

Tem gente que há seis anos tem apenas o protocolo em mãos, porque a burocracia é tanta que não se consegue o documento. Há casos de pessoas que já estão aqui há algum tempo, tiveram até filhos brasileiros e não se naturalizaram ainda.



No geral, quais as áreas que absorvem a mão de obra destes imigrantes?
A maioria consegue colocação no comércio ou no setor alimentício. Como a culinária árabe é muito diversificada e divulgada, há mulheres que trabalham em restaurantes ou que recebem encomendas em casa e saem entregando às famílias ou mesmo no comércio da Cidade.

Já os homens, quando conseguem emprego como gesseiros, marceneiros ou pedreiros, por exemplo, têm que se adaptar às técnicas e aos materiais daqui, que são bem diferentes das existentes em seus países de origem. Outra dificuldade é revalidar os diplomas deles, porque muitos são formados, mas quando chegam no Brasil, fazem o pedido de refúgio na Polícia Federal e recebem o protocolo para depois conseguirem o RNE (Registro Nacional de Estrangeiro), que antes levava seis meses para ficar pronto e agora demora até mais de três anos. Só com este documento é possível tirar CPF e Carteira de Trabalho, abrir conta em banco, sair do País, se inscrever em programas sociais como o ´Minha Casa, Minha Vida´, entre outros, além de revalidar seus diplomas para fazer valer a formação já adquirida nos países de origem.

A senhora sente-se realizada com este trabalho?
Sim. Não consigo me desligar deste trabalho nem mesmo quando estou viajando. Isso está muito relacionado ao que fui e vivi com minha família na Jordânia, nos tempos como refugiada, durante a guerra. Sei o que é tudo isso. Senti na pele esta dificuldade. Hoje, vendo estas pessoas, relembro o que passei e sinto que meu dever é tentar ajudá-las. Sei que é preciso saber lidar com elas, porque são fragilizadas pela própria situação de insegurança em que vivem, mas graças a Deus tenho paciência e adoro este trabalho. Estas pessoas me ligam para tudo o que precisam. Meu telefone e WhatsApp não param. O dia todo tem gente me procurando para tudo, principalmente quando alguém da família fica doente e precisa de atendimento médico. E eu me sinto bem assim, podendo ajudar no que for preciso. Se não consigo, peço ajuda a quem pode colaborar. E assim vamos fazendo o que é possível e, na maioria das vezes, até o impossível. Alguns dizem que sou mãe dos refugiados, outros me chamam de anjo da guarda. Não fico tranquila enquanto não consigo resolver uma situação que envolve algum deles. É difícil, cada dia aparece um problema, mas estes desafios nos tornam ainda mais fortes.

Como a senhora consegue forças para driblar as dificuldades?
Deus me dá muita força para tudo isso e consigo me manter sempre ativa desta forma. Sei que é uma missão, que estou aqui para somar na vida destas pessoas e conseguindo que sejam valorizadas, me sinto feliz e realizada. Meu sonho é conseguir um terreno para que estes refugiados possam construir apartamentos populares, saindo do aluguel e morando em suas próprias casas. Isso reduziria bastante nosso gasto mensal e teríamos condições de ajudar mais pessoas.

O que a senhora faz para se distrair quando não está trabalhando?
Adoro viajar e, mesmo depois que fiquei viúva, procuro aproveitar minha vida da melhor maneira. Vou sempre visitar os parentes na Jordânia, assim como os irmãos, espalhados em vários países. Já fui muito acelerada, mas aprendi que é preciso ter tranquilidade, fazer boas amizades, aprender sempre, entender os outros e se adaptar às situações para viver bem. E assim procuro fazer no dia a dia. Cozinhar é outra distração e tenho como prato preferido o virado árabe, com arroz, frango, batata, couve-flor e berinjela, acompanhado de salada de pepino, coalhada e hortelã. Mas sei preparar todos os outros, inclusive da culinária brasileira.

PERFIL
NOME: FAYSA DAOUD
IDADE: 56 ANOS
NASCIMENTO: AMÃ JORDÂNIA
ESTADO CIVIL: VIÚVA HÁ 5 ANOS DE HUSEIN ARMAN
FILHOS: SAMIR, DINA E JAMAL
NETOS: JAMILE, SAMIA, KARIN, RANIA E AMIR
FORMAÇÃO: 2º GRAU COMPLETO
TRABALHO: PRESIDENTE DA ONG REFÚGIO BRASIL

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