Fátima Sampaio, a vida de quem não esquece Mogi - O Diário - Mogi das Cruzes , Suzano e Região do Alto Tiete
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Fátima Sampaio, a vida de quem não esquece Mogi

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Fátima Sampaio

Fátima Sampaio

ELIANE JOSÉ
Dos incentivos ouvidos de uma das irmãs, Ana Maria, quando a via recortando os jornais que apareciam na casa de César de Souza, onde vivia a família Sampaio – os pais, Terezinha e João, e os 16 filhos -, ela deve a profissão: jornalista. De um sonho, morar no Ceará, e uma desilusão, o fim do primeiro casamento, deve o amadurecimento pessoal e profissional, iniciado com as passagens pelas rádios Metropolitana e CBN, pela Revista Ato. Da cobertura de um dos campeonatos Master de Tênis, pela Revista Caras, onde atuou durante três anos, no mesmo tempo que cuidava dos cadernos de Veículos, Esportes, TV e Turismo, do jornal O Povo, de Fortaleza, viu nascer uma história de amor e parceria, e terminar uma solidão, sentida desde muito cedo. Essa é a história de Fátima Sampaio, que veio para Mogi das Cruzes no colo, com um ano, quando a família deixou a centenária Mariana (MG). Aqui viveu até os 30. Daí embarcou para Fortaleza, dali para a França, onde morou um ano, e, por fim, para o Rio de Janeiro, onde reside com o marido, o jornalista, locutor e apresentador de televisão Cid Moreira, dono da voz conhecida por ter ancorado durante anos o Jornal Nacional, da Rede Globo. Os dois têm uma diferença de idade – 36 anos. É muito? Não, diz ela. “Vivemos um relacionamento não daqueles idealizados, como no período romântico, temos os conflitos diários, a individualidade de cada um, e algo maior, o amor. Com Cid, eu não senti um só dia de solidão”, responde. Fátima sente-se mogiana. Vem a Mogi quase todo Natal. Aqui tem amigos, lembranças e pode ter um endereço no futuro. É o que ela contou, numa tarde de entrevista. Acompanhe:

Como a sua família chega a Mogi?

Meu pai comprou uma fazenda, em Guararema, e uma casa, em César de Souza, porque queira que os filhos estudassem. Só que, em Guararema, logo descobriu que havia sido ludibriado, as terras não eram de quem as vendeu. Ele enfrentou dificuldades financeiras, e morreu quando eu tinha 17 anos; minha mãe, quando eu tinha 13. Então, como a família era grande, 16 filhos, os mais velhos e casados, cuidaram dos mais novos, depois que eles morreram.

E como era César?

Nós morávamos na rua dividida pelo córrego (dos Corvos), no Jardim São Pedro, era uma rua que enchia de água e de lama quando chovia. Mas tinha amigos como a Rosana Regato, querida até hoje. Estudei na escola “Sebastião de Castro” e, depois no “Washington Luis”.

Como todos se viraram?

Tive de trabalhar cedo, com 13 anos, trabalhei em casa de família, depois no Mercadão (num dos boxes que vendia frango assado) e no comércio (como a Livroeton). Consegui fazer a Faculdade de Jornalismo porque tive o crédito educativo. Paguei depois de formada, e me casei cedo, com 18 para 19 anos. Outros irmãos também fizeram a faculdade, todos nós batalhamos muito, e sempre nos reunimos no Natal. Tenho 64 sobrinhos-netos. É uma grande família.

Você começa a trabalhar na imprensa do Alto Tietê.



No (jornal) Gazeta, de Suzano, no Mogi News, na Revista Ato, onde o meu editor era o jornalista Samy Charaneck, que ajudou muito, quando eu me separei. Eu demorei a superar a separação, devo muito ao Samy, e a outros amigos de Mogi. Também trabalhei na Metropolitana e na CBN (rádios) e no jornal O Diário. Foi o Samy quem me mandou para Crateús, fazer uma matéria sobre como era a cidade onde nasceu o Padre Melo (ex-prefeito e chanceler Manoel Bezerra de Melo, da UMC). Eu fui fazer um perfil dele, que estava na política, e deixei currículos no jornal O Povo, de Fortaleza, e fui contratada. Eu fiquei no Ceará dos 30 aos 36 anos, e digo que Deus e as pessoas que encontrei me auxiliaram muito. Eu estava derrotada, com o fim do casamento, e no jornal, havia uma psicóloga, que o Departamento Pessoal me indicou, porque eu vivia deprimida, me sentia só, por não conhecer ninguém, e a terapia me fez muito bem. Lá, também trabalhei na TV Cultura. E conheci o interior do Ceará, fiz uma série, O Povo nos Bairros, e percorri favelas, comunidades muito pobres. Eu conheci um francês, o André Ligeon, que era um documentarista, e nos unimos para contar histórias daquelas pessoas. E eu acabei sendo convidada para fazer um curso sobre documentários no Centre International de Création Vidéo Pierre, na França.

E o trabalho no jornal?

Abri o jogo com a dona do jornal, Luciana Dummar. Disse que havia recebido o convite, mas não podia deixar o meu trabalho, precisava do meu salário, e ela, generosa, concordou. Eu virei uma correspondente de Paris. Fazia matérias sobre a França, e outros países que visitei, durante um ano.

E quando terminou o curso?

Voltei, e como dois documentários foram feitos com roteiros meus, recebi royalties, e consegui comprar meu Mogicarro, um apartamento, e continuava no trabalho, nos cadernos de Carros e de Viagens. Como eu era solteira, viajei muito, para os salões internacionais de carros e fábricas mais importantes. Também fazia freelancer, para a Revista Caras. Conheci muitos jornalistas, como a Marisa Tavares, do Estadão, que me ajudou demais, gente que me ajudou a escrever. Gente como o Darwin Valente, quando passei pelo O Diário, e o Edinho Martins, fotógrafo. Nunca fui a super jornalista. Não, eu era a jornalista básica.

Básica?

Foram as pessoas que me ajudaram, e acho que também o fato de eu ser sozinha: tinha uma pauta para ver como os brasileiros começavam a comprar apartamentos e a viver em Miami, por exemplo, e o editor me convidava, eu aceitava.

Foi por meio da Revista Caras que você conheceu o Cid Moreira?

Essa história começa especial, porque eu tinha acabado de voltar de uma viagem que fiz entre Madri e Málaga, na Espanha, num teste drive para o jornal. Eu estava muito cansada, quando a editora de Caras pediu para eu cobrir o campeonato Master de Tênis, e o Cid Moreira era um dos participantes. Eu pedi para uma amiga, que topou ir, mas ela teve um problema, torceu o pé. Penso que era para eu ir.



E como foi esse primeiro encontro?

Jornalista, você sabe, não se ilude com a celebridade, sabe que ‘ser celebridade’ é algo passageiro, ilusório. Nunca fui deslumbrada, nem agora. Era um trabalho, era um entrevistado jornalista como eu, e só. Mas, ocorreu algo, no encontro, eu senti um baque, algo que não era visível aos olhos, eu não estava encantada por ele, mas ele era charmoso, envolvente, olhos azuis … conversamos muito. Algum tempo depois, ele dizia que perdeu o campeonato, porque eu desviei a atenção dele (risos). Mas, eu não sentia assim, ainda. Quando saiu a matéria, ele mandou flores, agradeceu, começamos a conversar, ele me propôs um trabalho: ser a assessora dele, na organização de um site. A internet começava. Eu me senti honrada, mas sabia que ele conhecia muitos outros jornalistas.

Ele estava de olho em você.

Pois é. Depois, fui para o Rio, assinar um contrato com a Globo.com, para fazer o site dele, e ele perguntou sobre o meu pé, porque eu mancava. Quando tinha nove anos, tive uma febre reumática, que comprometeu o movimento dos pés. Quando criança, sofri bullying, e também era muito insegura, mas a vida nos amadurecr. Eu não pensava em operar os pés, mas temia algum comprometimento com o passar dos anos. O Cid me convenceu, fomos a uma consulta com um especialista, conhecido dele. E combinamos de fazer um teste, eu ficaria no Rio, na casa dele, operava os pés, e veríamos como nos sairíamos.

Já existia algo?

Foi imediato, um grande encontro entre duas pessoas, onde não importava a diferença de idade (ele, 89 anos; ela, 53, hoje).

Foi uma decisão difícil?

Foi. Porque eu tinha a minha vida profissional, meu apartamento, minha carreira em Fortaleza. Eu não podia, de novo, virar uma “farinha” e voltar toda quebradinha, já tinha sofrido antes. Mas, o Cid foi muito sensato.

Eu entrei no INSS, para o período das cirurgias, fisioterapia, etc. Foi uma dura e longa caminhada.

E o tratamento?

Foram seis cirurgias, um período longo de recuperação, e o diagnóstico dado pelo médico que, se quando criança, os procedimentos corretos tivessem sido feitos, eu já teria me livrado do problema na infância.

E logo veio o casamento?

Não, ele tinha se separado, é uma pessoa discreta. Esperamos um tempo para nos conhecermos e também para ele resolver pendências, como a empresa que tinha com a ex-mulher. Tudo aconteceu entre nós, com tempo, na medida em que o envolvimento se tornava maior. Casamos em 2000.

É uma bela história amor.

É uma história de luta e de amor. Eu lutei a minha vida toda, ele não me salvou do meu passado. É a história de um cara bacana, que encontra uma moça bacana, e ambos se gostam. Eu sempre trabalhei muito, e sempre me senti um pouco só, e com o Cid, eu nunca mais senti a solidão, porque nós construímos uma relação no dia a dia. É alguém que zela por mim, e por quem eu também zelo. Alguém que esteve comigo durante uma decisão difícil, a cirurgia, e de uma recuperação lenta, que levou um tempo, de cama, cadeira de rodas, fisioterapia, luta. Era eu nascendo de novo, para algo também novo. Quem não se apaixonaria por um parceiro como ele? Mas, temos as diferenças, ajustes até hoje. Somos diferentes, então, nos completamos.

E trabalham juntos?

Ele não para. E eu também não, escrevi o livro dele, Boa Noite, em 2006, e sou assessora de imprensa dele, que faz muitas palestras, encontros, apresentações, gravações.

Como é trabalhar a diferença de idade entre vocês?

As amigas, no princípio, diziam você está doida, você é um passarinho, leve, como vai casar com um velhinho? Mas, depois de conhecer a nossa rotina, entenderam. Ele é uma pessoa normal, que tem uma vida super saudável, é mais velho, e só. Vivemos um dia por vez. Viajamos muito, fizemos amigos, temos nossas famílias, e as pessoas que trabalham conosco, cuidamos dessas pessoas. Eu acredito muito que não posso mudar a vida de todos, que o mundo está descontrolado, mas posso fazer algo por quem está próximo de mim.

Isso é gratidão?

E aprendizado. Meus pais me deram valores. Meu pai me deixou três conceitos de vida: você não pode comprar o que não pode pagar, prometer o que não pode cumprir, e não esquecer de Deus. Quando comecei a trabalhar na Rádio Metropolitana, eu tive uma editora, que me fez muito mal. Ela me feriu, disse que eu nunca seria uma boa jornalista, porque eu era insegura. E isso me marcou muito, eu já tinha sentido esse desprezo, quando eu era criança. Mas um dia .., mudou a chefe, veio a Silvia Chimello (repórter hoje, de O Diário), daí, eu voei. Voei porque ela me deu segurança, deslanchei. A minha irmã Ana Maria também me fez voar, me olhava com os recortes de jornal, e dizia: ‘ essa será a jornalista da família’. Esse incentivo fez toda a diferença. A minha mãe buscava lenha para acender o fogão, e pedia pão dormido na padaria para levar para casa. Não passamos fome, mas ela trabalhava por nós.

Você não teve filhos. Foi opção?

Não, eu tentei, mas acabou não acontecendo, e hoje penso que isso foi bom, talvez não tivesse sido uma boa mãe, e eu devo a minha vida, as viagens a isso.

Era para ser assim. E os planos futuros?

Fazer algo na área social, gravar livros para cegos, temos um bom estúdio, em casa, e seguir trabalhando.

Um dia você volta?

Quem sabe… Tenho muitas saudades dos shows do Vital e do Ginho, de amigos que me auxiliaram, a Rosana Regato, amiga, até hoje, do Ivan Rizzi. Sinto saudade da cultura, da música de Mogi, de gente como o Márcio Cardoso. Mogi tem isso: amizades. E tenho muitos amigos como Jair Mafra Machado, Lúcio Bittencourt, Viviane Monteiro, Rita Parreira, Inês de Moraes, Irani Penha Pereira de Souza, Meire Martins, Rosana e Roberta Regato, Gisélia Cabral, Ricardo, Nenê e Cláudia Melo, os músicos Ginho e Vital de Souza, a Celeste Gomes, Antonieta Nieta, os jornalistas Arismar Garcia, Mônica de Paula, Marise Carvalho, Maria Paula, Nilsa Santos, Lilian Calil, Haisem Abaki, Vanice Assaz e Marcilene Mangine, Benê Rodrigues, Alberto Bertozzi, Bueno, Káka, Doni Bittencourt, Paulo Rotta, Nadia Luis, Davi de Lima, o senhor Durval Palomares, Mel Tominaga e a Helenice Freitas, colega de infância.

E Mogi, para você?

É a minha cidade. Devo a ela minhas as minhas memórias. Gosto de lembrar dos lugares, da subida da Serra, dos bairros japoneses, do Mercadão, onde trabalhei na Frangolândia, as ruas estreitinhas, a Praça da Matriz. É em Mogi que estão meus sobrinhos e irmãos (a maior parte deles), e amigos.

PERFIL
NOME– Fátima Sampaio
NASCIMENTO – Mariana (MG), em Mogi desde um ano de idade

PAIS- Terezinha e João Sampaio
IRMÃOS – Geraldo, Maria de Conceição, Ana Maria, Margarida, José Antonio, Domingos, João Luis, Sebastião, Raquel, Eduardo, Isabel, Teresinha, Otaviano, Jésus e Maria Imaculada.
ESTADO CIVIL – Casada com Cid Moreira
PROFISSÃO – Jornalista formada pela Universidade de Mogi das Cruzes
ONDE MORA – Petrópolis (RJ)

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