Familiares falam da saudade das vítimas da Mogi-Bertioga

Faltava apenas um semestre para a estudante Daniela Aparecida Mota Dias, de 24 anos, se formar em Arquitetura. Ela tinha o sonho de, com o diploma, conseguir um bom emprego e ajudar a família, conforme conta o pai dela, o porteiro Orlando Dias, de 48 anos.
“Ela está fazendo muita falta. A gente tem que colocar a cabeça no lugar para poder suportar essa dor. Está muito difícil”, relata.

Orlando diz que Daniela tinha um apartamento onde ficar em Mogi das Cruzes – e ela permanecia mesmo por aqui quando conseguia uma folga em um hotel do Litoral, onde trabalhava como caixa. Na terça-feira, um dia antes do acidente, a estudante tinha dormido em Mogi, mas acabou voltando a Boraceia na quarta-feira.

Último abraço
Vítima da tragédia do quilômetro 84, a estudante de Enfermagem, Rita de Cássia Alves de Lima, de 19 anos, não queria ir para a faculdade no dia do acidente. Muito abalada, a mãe dela, a caseira Maria Alves de Lima, de 45 anos, diz que a dor da perda da filha única é tão intensa que chega a anestesiar.

“Naquele dia eu dei um beijo nela, olhei e fixei bem os olhos nela. Ela me olhou também, sabe, como se fosse uma despedida? Ela me agarrou, me deu um abraço gostoso. Eu beijei e abracei a minha filha todos os dias da minha vida. Ela brincava, dizendo que eu era melosa. Eu dizia que era porque eu só tinha a ela. Nós éramos duas irmãs, duas amigas, muito amigas”, conta Maria.

Mesmo na dor, ela tenta juntar forças para visitar os pais das outras vítimas do acidente a fim de oferecer-lhes apoio. “Muitos estão passando pela mesma situação, mas não podem falar nem um bom dia, porque estão fechados, deprimidos em casa, desde aquele dia, sem saber o que é ver o sol”, completa.

Mudança
A aluna do curso de Engenharia Civil, Gabriela Leite Braz, de 18 anos, diz que só consegue se lembrar dos gritos dos amigos momentos antes do acidente. Apesar de ela não ter perdido a consciência, a pancada que sofreu na cabeça foi tão forte que lhe causou traumatismo craniano – e uma profunda amnésia. Segundo relata, os amigos dizem que foi ela quem deu os primeiros sinais para que todos colocassem os cintos de segurança.

“Meus amigos dizem que colocaram o cinto porque eu estava gritando para que fizessem isso. Eu não lembro de nada”, conta.

Ela diz que vai continuar o curso, mas se planeja para morar em Mogi das Cruzes com a irmã do namorado (Daniel Bertoldo, de 19 anos, morto no acidente). “Todo mundo tinha medo dentro do ônibus”, ressalta. Segundo laudo da Polícia Civil, o acidente foi causado por falha nos freios. Para Gabriela, não foi só isso. “Eu creio que foi, sim, falha no freio, mas com ajuda do motorista, da alta velocidade”, pondera. 

Justiça
Familiares e vítimas do acidente do quilômetro 84, na Mogi-Bertioga, ingressaram com ação criminal por dolo eventual contra os proprietários da empresa União do Litoral. Eles também pedem indenização por danos morais e materiais à empresa e à Prefeitura de São Sebastião.

O advogado mogiano José Beraldo está à frente das ações e diz que o laudo da Polícia Civil apontando falha nos freios do veículo justifica a ação criminal contra os proprietários da empresa. “Queremos fazer um apelo ao Ministério Público de Bertioga para que ele seja firme. Não podemos ter autoridades frouxas com uma denúncia de dolo eventual, porque os proprietários da empresa permitiram que um ônibus sucateado fosse utilizado no transporte dos estudantes”, explica.

O advogado representa 11 dos casos – entre ações solicitadas por familiares das vítimas fatais e por estudantes sobreviventes. As ações judiciais pedem indenização de R$ 500 mil por danos morais e materiais. Por conta disso, Beraldo também pediu o bloqueio dos bens registrados em nome da empresa.

DANILO SANS