El Niño poderá ser o ‘vilão’ da inflação

SÃO PAULOAULO AULO
O preço dos alimentos, principal motor da rápida desaceleração da inflação em 2017, pode passar de herói a vilão no final deste ano. Em seu relatório mais recente, de março, a agência americana que monitora o risco de fenômenos climáticos globais mais que dobrou a probabilidade de que ocorra El Niño a partir de agosto.
Caracterizado por um aquecimento anormal das águas superficiais no oceano Pacífico, o El Niño afeta as chuvas e a temperatura no mundo todo, prejudicando a produção de alimentos – e, assim, elevando os preços.
Segundo a Administração Oceânica e Atmosférica Nacional (NOAA, na sigla em inglês), do governo dos EUA, o risco de que ocorra o fenômeno neste ano passou de 29% em dezembro do ano passado para 70% no último mês.
Se a previsão se confirmar e o efeito no clima for relevante, os preços podem começar a subir em novembro, diz a economista Iana Ferrão, responsável por análise de inflação no banco Credit Suisse. “O risco é maior para o ano que vem. Se no final do ano as chances de quebra de safra subirem, isso pode afetar o trabalho do Banco Central.”
O comportamento da inflação baliza as decisões do BC sobre a Selic, a taxa de juros básica da economia: o governo fixa uma meta para o IPCA do ano e a autoridade monetária altera os juros se o índice se desviar desse objetivo.
Quando a alta de preços se acelera, o BC eleva a taxa Selic. Quando a inflação perde fôlego, o BC reduz os juros.
Esse segundo caso é o que vem ocorrendo desde outubro do ano passado, e com mais intensidade neste ano. Depois de dois cortes de 0,75 ponto, as expectativas são que haja redução de ao menos um ponto na reunião que começa na terça.
A queda dos juros é considerada importante para recuperar a atividade econômica. Parte do mercado financeiro também torce por queda mais brusca, que elevaria o preço de papéis em que investiram.
O grupo de alimentos e bebidas representa mais de 25% do IPCA, porém, e uma aceleração em seus preços pode frear a redução da Selic.
Neste ano, mais da metade do recuo da inflação ocorreu graças aos alimentos, cita Iana Ferrão. Nos 12 meses encerrados em setembro de 2016, o IPCA era 8,5%. Em fevereiro, foi 4,8%. Dos 3,7 pontos percentuais de diferença, 2 foram efeito direto dos alimentos.
“Isso sem contar o efeito indireto, como na alimentação fora do domicílio, que representa 25% dos serviços.”
A alta de preços no Brasil também está limitada pela pressão menor do câmbio, que faz o produto nacional perder competitividade no mercado externo, observa Fábio Silveira, diretor da MacroSector. O dólar médio deve ficar em R$ 3,24 neste ano, ante R$ 3,49 no ano passado.
Cenário
Ferrão diz que não há dados suficientes para projetar qual pode ser o efeito nos preços de um novo El Niño em 2017. Em 2016, quando o fenômeno foi um dos mais fortes da história, igualado apenas pelo de 1997-98, o choque no preço de alimentos respondeu por 0,9 ponto do IPCA de 6,29%, segundo cálculos do economista-chefe da LCA, Bráulio Borges.
Neste ano, porém, mesmo um El Niño forte teria efeito menor sobre os preços das commodities. O cenário mundial atual de grãos é diferente do de há dois anos, porque os estoques estão mais altos.
Um dos exemplos é o milho, importante nessa cadeia porque é usado no consumo humano e na produção de animais. Há quatro anos, os estoques de milho dos EUA eram suficientes para 27 dias. Hoje, estão em 58 dias.
Segundo o Amis (sistema de informação baseado em 11 organizações internacionais), estoques de milho, trigo, arroz e soja dão hoje boa sustentação à demanda. Silveira lembra ainda que, com a prevista elevação dos juros nos EUA, o investidor pode trocar commodities por ativos financeiros, reduzindo o preço dos grãos.
Mas, momentos de muita oscilação de preços também criam um quadro favorável para uma participação maior de grandes fundos de investimentos, que é sempre um fator de incerteza nos preços para o mercado. Nunca se sabe a hora em que vão entrar nem quando vão sair. Os efeitos são grandes na entrada e na saída.