Culinária mogiana constrói a identidade da Cidade

NATAN LIRAExperimentar uma comida pode proporcionar uma viagem a lugares antes visitados e até lembrar da ocasião em que experimentou o prato. Isso acontece com maior facilidade quando o menu é típico de uma região. Em Mogi das Cruzes, alguns alimentos ajudam a contar a história da Cidade, desde a colonização com o afogado aos dias de hoje com a guioza da Feira Noturna.

Nutricionista diz que é possível lembrar de situações ao experimentar um prato. (Foto: Arquivo Pessoal)
Nutricionista diz que é possível lembrar de situações ao experimentar um prato. (Foto: Arquivo Pessoal)

A nutricionista clínica e coach de saúde e qualidade de vida, Emy Kagiya, explica que esta lembrança ocorre porque as pessoas guardam na memória os acontecimentos decorrentes de muita emoção. “Quando estamos em um momento especial, com pessoas especiais, e ainda mais com alguma comida deliciosa e marcante, tudo isso fica registrado em nossa memória, e pode guardar lembranças e nos remeter aquele momento de anos atrás sim, quando voltamos a experimentar um prato”, conta. Ela ressalta ainda que no caso de Mogi há uma sementinha gastronômica de todos os povos que participaram do processo de colonização e por isso existe uma diversidade na cozinha mogiana.

O historiador mogiano Mário Sérgio de Moraes conta que diversos pratos ajudam a contar a história de Mogi, desde a mandioca e o milho no período colonial, a marmelada servida durante as festas de carnaval no século XIX, ao bife esquisito, tradicional na Cidade há pelo menos 50 anos. “A Cidade foi responsável ainda por uma mudança na refeição não só do Alto Tietê mas também da Capital. Com a chegada dos japoneses para o bairro do Cocuera, eles começaram a cultivar e vender legumes e verduras e também o tomate, até então inexistente no prato dos moradores dessas regiões. Não é à toa que Mogi ficou conhecida como o cinturão verde do Estado”, conta.

Mário Sérgio diz que cozinha mogiana faz parte da identidade da cidade. (foto: Arquivo)
Mário Sérgio diz que cozinha mogiana faz parte da identidade da cidade. (foto: Arquivo)

E ele destaca que esta tradição deve ser mantida porque faz parte de Mogi. “Eu acho que o fator fundamental é o seguinte: nós estamos num momento de globalização e que tudo fica ao mesmismo da procura da identidade, seja no futebol, na dança, e nós já temos a nossa que está no prato de comida. É uma característica tão especial” enfatiza.

Afogado alimentava tropeiros
afogado

A localização entre a Capital e os estados de Minas Gerais e Rio de Janeiro transformou Mogi das Cruzes em um ponto de parada para os tropeiros ainda no período colonial. Aqui os viajantes a cavalo paravam para descansar e também se alimentar. Com pouco dinheiro e muita fome, era necessário um prato com sustância, foi aí que surgiu o afogado como uma opção barata, pois eram utilizadas as carnes de segunda e batatas cozidas com bastante água e tempero. Com o passar dos anos, o prato foi mantido na Cidade e hoje é o carro-chefe da Festa do Divino Espírito Santo. Só na última edição do evento foram utilizadas mais de cinco toneladas de carne para preparar a iguaria.

Tortinho, um símbolo de mogianidade
tortinho

Preparado com farinha de milho branca e carne moída, o tortinho é um símbolo de mogianidade. Durante a Festa do Divino é possível encontrar na barraca da iguaria desde os moradores mais antigos aos mais novos da Cidade. Há mais de três décadas, a tecelã Judith Gonzaga, de 83 anos, ajuda no preparo do tortinho para a festividade. Ela explica que ele é fácil de se confundir com o bolinho caipira, mas no bolinho mogiano utiliza-se um pouco de farinha de mandioca apenas, já o caipira é meia porção de farinha de mandioca e meia porção da de milho branca. A carne é utilizada para o recheio. Ele é servido frito. Durante o ano inteiro é possível experimentar o tortinho no Mercado Municipal, no Centro de Mogi.

Picanha do Erasmo para várias gerações
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No início dos anos 1980, Erasmo Gonçalves notou que os açougues de Mogi não separavam a picanha das demais carnes, o que acabava de certa forma desvalorizando um dos pedaços mais nobres do boi. Já conhecendo a cultura dos restaurantes paulistas, ele resolveu comprar as peças aqui em Mogi, separar o corte e vender. Não demorou muito e logo o prato seria um dos mais conhecidos na Cidade: Picanha do Erasmo. Uma porção vem com cerca de 800 gramas da carne, batata frita, salada e arroz e é indicado para duas pessoas. O custo é de R$ 90. “Eu tenho desde aqueles clientes mais novos que eu preciso perguntar o ponto da carne que ele prefere até os que eu sei exatamente como eles gostam”, conta o fundador.

O sucesso da traíra sem espinhos
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Desempregado no início dos anos 1990, o mogiano Antônio Vianei Sandim Guimarães dedicou-se à pesca para sustentar a família. Ele trazia os pescados de Salesópolis para a venda e também para o consumo, este último Guimarães fazia questão de tirar todos os espinhos. Num dos encontros de amigos na garagem de casa, apresentou a traíra sem os incômodos espinhos e de pronto recebeu um feedback positivo. Em seguida, o pescador abriu no fundo do quintal de casa um espaço para refeições. Fez um fogão a lenha, passou a preparar pratos a base de peixe, sem espinhos. Hoje, a família comanda além da casa de Mogi, outra na Vila Mariana. A limpeza especial se estendeu para as demais espécies. As duas unidades movimentam, em média,1,2 mil quilos de pescados por mês.

Guioza, referência na Feira Noturna
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O mais novo dos xodós culinários da Cidade é o guioza da feira noturna de Mogi. A barraca é comandada por Maurício Kazuhiro Kusumoto. Ele conta que há três anos pensou em abrir um negócio e viu na iguaria uma possibilidade de negócio, já que ninguém oferecia. “Eu comecei no Varejão de Quinta e depois passei para a Noturna. Hoje eu vendo em média 600 guiozas por mês. A maior parte dos clientes é de pessoas que já conhecem o alimento e voltam para comer de novo”, conta. O guioza é uma espécie de pastel chinês, preparado basicamente com água, farinha e fermento e recheado com carne de frango, boi e porco e ainda tem a opção vegana. Ela pode ser frita ou grelhada.

Uma nova versão do quibe
quibe

Há 20 anos, a comida vegetariana não estava tão em alta como nos dias atuais, mas a libanesa Mounira Nayef Saada apostou em uma receita com modificação do conhecido quibe. Ela retirou a carne do preparo e colocou a coalhada seca. O resultado foi acima do esperado e hoje é um dos carros chefes do empório e restaurante da família na Cidade. “O modo de preparar é bem parecido, eu faço com batata, nozes moídas e um pouco de trigo, coloco temperos como hortelã, cebola, pimenta e sal e pode ser assado ou frito. Hoje a maior parte dos meus clientes é de brasileiros e não os descendentes dos países árabes”, conta. A produção mensal é de cerca de mil quibes. Uma bandeja com 12 quitutes de pouco mais de 100 gramas cada custa R$ 26.

Um bife diferente
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Apesar de o nome chamar bastante a atenção, para quem olha à primeira vista pensa em que é um simples filé mignon à parmegiana. Engana-se, pois o bife esquisito de Mogi é servido com uma farta camada de molho de tomate, coberto de batatas chips, ovos fritos e vem acompanhado por salada de alface e tomate. A receita tem mais de cinco décadas e veio dos irmãos Massao e José Makimura Masamiti. A tradicional iguaria já atravessou os continentes e chegou ao Japão, mas ainda é mantida originalmente no número 1.562 num pequeno imóvel da Rua Doutor Deodato Wertheimer, pela segunda geração da família, a sobrinha dos fundadores, Célia Yumi Makimura.