Cuidado com os Joaquins

Desde logo é preciso ficar claro que a democracia é, apesar de portar também imperfeições, a melhor forma de governo experimentada pela civilização humana. Por causa do enorme crescimento populacional, a fórmula representativa é a única viável. E nem se diga que só na modernidade, pois, a experiência democrática da Grécia Antiga, de onde foram hauridos os princípios que sugestionaram as atuais Repúblicas, bem examinada, não passava de uma forma classista de governo. O aperfeiçoamento, se assim se pode referir, da participação popular no processo decisório das sociedades foi demoradíssimo, dependeu do desenvolvimento de muitos instrumentos, sem os quais não funcionaria e, mesmo após diversos filósofos e pensadores políticos terem concebido exponenciais regramentos para sua melhor prática, a verdade é que sempre ocorrem distorções que, se não a põem por terra, dificultam muito seu funcionamento.
Depois de passado o período colonial de toda a América, a única real experiência monárquica no novo mundo, foi a do Império brasileiro, com seus quase setenta anos de duração. Embora os historiadores consigam mostrar aspectos positivos dessa forma governamental, principalmente, no que diz respeito à preservação da unidade nacional, o fato é que deficiências muito mais prejudiciais – como, por exemplo, a escravidão –, tiveram influência decisiva no surgimento da nossa República. Mas, dada a forte estrutura social do período colonial seguido do período monárquico, quer do reinado unido, quer do independente, nossa República sempre teve grandes complicações a impedir o exercício democrático almejado teoricamente. Assim, tirante espasmos de funcionamento na conformidade das teorias, as distorções tendentes a processos de regime ditatorial de força, preponderaram.

Tais espasmos, ainda com imperfeições, foram, no entanto, alvissareiros e deram-nos a impressão de estarmos a caminho da democracia possível. Mas, aconteceu pouco antes de 1964 e também de 1990 que a liberdade democrática se confundiu com liberalidade, o público se confundiu com o privado, o povo empobreceu demais e sentiu um grande vazio de liderança e se apegou ao primeiro aventureiro – no primeiro caso os militares, tidos como reserva moral da pátria e, no segundo caso Collor de Mello, o caçador de marajás –, que apesar do inegável, mas infeliz apoio popular em ambos os casos, deu no que deu.

Estamos agora em momento idêntico. Após espasmódico período de bonança econômica e de quase plenitude de democracia em momento de direito estável, exatamente e de novo pela confusão do público com o privado, as estruturas se vão ruindo e o vazio de liderança é inconteste. A oportunidade para aparecimento de arrivista político é, outra vez, muito grande. Não é fácil para o eleitorado em geral ter precaução. Um ou outro desses arrivistas já mostra a cara e põe suas manguinhas de fora. Precisamos de muita atenção e cuidado com os Joaquins da vida.

PS.: Neste final de semana que passou de novo meu coração de pai e de irmão teve aperto de dor incômoda de tal sorte que me acovardei e não consegui me mover do meu canto para o abraço, que não resolveria, mas, talvez, ajudasse a consolar o Sérgio e a Sônia em mais essa irreparável e inaceitável perda de um filho, agora o Cláudio, seu caçula. De novo só resta lembrar Ibrahim Nobre: “Que Deus mantenha na alegria alheia, toda a alegria que tirou de nós.”.

Redação

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