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Perseu Gentil Negrão
Resolvi tirar uns dias de férias. No penúltimo dia antes do descanso, como sempre acontece, minha vida transformou-se em uma verdadeira quitanda, com pepinos e abacaxis para descascar. No meio da tarde, por telefone, fui convocado para integrar o Órgão Especial do Ministério Público. Esse colegiado é composto pelos 20 procuradores mais antigos e por 20 eleitos. Fiquei abalado com a convocação, pois me dei conta que eu iria participar do “Conselho de Anciãos”.

Na reunião, constatei que todos os integrantes têm os cabelos brancos ou não os têm. Pensei que também os meus cabelos estão rareados e grisalhos.

Enquanto aguardava o início, entrei no túnel do tempo. Estou em 1980, muito jovem, cabelos escuros e fartos. Assustado, adentro o auditório do Ministério Público, para ser submetido ao exame oral. Sento em uma mesinha. À minha frente, uma grande tribuna, com vários senhores sisudos, que me perguntam variados temas jurídicos. Dias depois, volto ao mesmo auditório (apreensivo). Começam a divulgar nomes e ao chegar no 16º escuto o meu. Assim, ingressei no Ministério Público de São Paulo, aos 22 anos (um dos mais jovem da história). O devaneio foi interrompido com o começo da reunião…

Na segunda-feira, 11/09/2017, como de hábito, após ler o jornal e verificar os “e-mails”, pus-me a trabalhar. Ao grafar a data no parecer, lembrei que há 37 anos tomei posse como promotor público substituto.

Ao longo desses anos tive a felicidade de conviver com homens e mulheres dignos, com ideais de justiça, que sempre mantiveram abertas as portas das promotorias, como a última esperança para muitos. Vi o Ministério Público crescer muito (ajudei um pouco), passei dissabores, chorei com algumas injustiças, tive algumas vitórias, mas penso que trabalhei pouco, pois quem faz o que gosta não sente o suor do rosto, a canseira do corpo.

Como disse o poeta Gonçalves Dias (Y-Juca Pirama), pois “estou praticando mais o d’outrora”, embora ainda tenha muitos sonhos.

Tenho tempo para aposentar, mas, como continuo amando o Ministério Público, vou continuar enquanto Deus permitir. É óbvio, que, com mais quilômetros percorridos do que a percorrer, “ando devagar, porque já tive pressa. E levo esse sorriso. Porque já chorei demais. Hoje me sinto mais forte. Mais feliz, quem sabe. Só levo a certeza, de que muito pouco sei, ou nada sei…” (Amir Sater).

Perseu Gentil Negrão é procurador do Estado do Ministério Público de São Paulo

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