Companhia Mogiana de Tecidos - O Diário - Mogi das Cruzes , Suzano e Região do Alto Tiete
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           CHICO ORNELLAS

Companhia Mogiana de Tecidos

Chico Ornellas

Pergunte ao seu vizinho por Jorge Mahfuz: conheceu? Com certeza é uma expressão que não se deve usar; mas, neste caso, “quase” com certeza seu vizinho responderá que não. Assim como a absoluta maioria dos que vivem nesta Cidade hoje. Creio que pouquíssimos dos nossos conterrâneos de agora tenham conhecido Jorge Mahfuz.

Eu próprio dele nunca tinha ouvido falar até que fui buscar as origens de uma das indústrias pioneiras de Mogi das Cruzes: a Companhia Industrial Mogiana de Tecidos. Foi instalada nas primeiras décadas do século passado, projeto de um visionário que passou por aqui e deixou legado: Ricardo Vilela.

Este ficou mais conhecido pelos projetos que desenvolveu para as primeiras ligações de energia elétrica da Cidade, idealizadas para atender sua fábrica de chapéus, que instalou na rua que lhe tem o nome hoje. E também à comunidade. Era a Companhia de Força e Luz Norte de São Paulo, de cuja usina, em Salesópolis, partia a linha de transmissão que chegava até aqui.

(Fotos: Arquivo pessoal)

(Fotos: Arquivo pessoal)

Mas, paralelamente a estes dois empreendimentos, Vilela também tocava a Companhia de Melhoramentos Porto Feliz e presidia a Companhia Industrial Mogiana de Tecidos e Fiação.

Suas instalações ocupavam quase todo o quarteirão formado pelas ruas Prudente de Moraes, Dr. Corrêa e Navajas. Era uma construção sóbria, com telhado de várias águas e janelões simétricos. Desde sua fundação, até ser transformada em outra empresa, sob a denominação de Mogitex – com a qual se encerrou a epopeia –, a Companhia Mogiana de Tecidos teve vários controladores.

Então chegamos a Jorge Mahfuz.

Que figura! Libanês de Hasbaya, nascido em agosto de 1880, veio para o Brasil em 1900. Trazia 20 libras esterlinas no bolso e nenhuma palavra de português na boca. Começou a vida como mascate em Dois Córregos, no interior paulista. Juntou o suficiente para trazer os irmãos (dois homens e três mulheres) e a mãe. E também mudar-se para São Paulo. Tudo ia às mil maravilhas no armazém de secos e molhados que montou na Rua Florêncio de Abreu.

Mas, como não há bem que sempre dure (nem mal que nunca se acabe), veio a revolução do general Isidoro Dias Lopes (10/07/1924). E, com a revolta, o saque ao armazém de 6 mil metros quadrados repleto de mercadorias nacionais e importadas.



Jorge Mahfuz perdeu tudo. Tinha 44 anos de idade. Mudou de ramo: foi cuidar de negócios imobiliários. Começou reunindo os importadores que mantinham depósitos na Avenida Presidente Wilson, em São Paulo, como entreposto do Porto de Santos. Em seguida, criou o Jardim Paulistano, loteando as terras que, hoje, compõem um dos mais valorizados bairros da Capital. E doou, para a comunidade britânica, uma área de 18 mil metros quadrados para a construção da St. Paul’s School. Condição: o colégio deveria estar pronto em um ano. Foi além: urbanizou a Vila Carioca, no Bairro do Ipiranga e o Jardim Marajoara, nas vizinhanças do Autódromo de Interlagos. Também o loteamento industrial de Utinga.

(Fotos: Arquivo pessoal)

(Fotos: Arquivo pessoal)

E ingressou no setor industrial, com interesses na Tecelagem Santa Branca e na Fábrica de Tecidos Labor. Foi esta experiência que o trouxe à Companhia Mogiana de Tecidos. A fábrica de Mogi das Cruzes enfrentava problemas e a família Mahfuz decidiu assumi-la. Foi em 1954. O começo lhe foi difícil: pouco depois de assumir a empresa e ainda às voltas com a adequação da companhia, teve de enfrentar a greve geral decretada pelas centrais sindicais para o dia 2 de setembro. A Mogiana de Tecidos aderiu ao movimento antes disso.

Mas Jorge Mahfuz não esmoreceu e, com a família, teve fôlego para fundar, na mesma fábrica de Mogi, uma segunda empresa, como meio de aproveitar a ociosidade das máquinas. Surgiu, então, a Indústria de Fitas Jomak. Tinha 79 anos o empresário quando morreu, no dia 10 de dezembro de 1959. Em seguida, a família se desfez da empresa daqui.

Seus descendentes seguiram-lhe a trilha. E uma nora, que se casou com o filho Aziz Mahfuz, transformou-se em ícone da moda brasileira, a ponto de ser eleita, pela revista Time, na década de 1970, “Personalidade Mais Elegante”. Até recentemente Elena ainda reunia em sua casa do Jardim Paulistano amigas para saraus em torno da história da arte. (Chico Ornellas)

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