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Cidade perde a tradicional Casa São João

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Heleninha Cury lembra com emoção de várias histórias vividas na Casa São João, ponto de referência no comércio mogiano / Foto: Eisner Soares

Heleninha Cury lembra com emoção de várias histórias vividas na Casa São João, ponto de referência no comércio mogiano / Foto: Eisner Soares

CARLA OLIVO

Em pleno dia de seu 456º aniversário, no próximo 1º de setembro, Mogi das Cruzes ficará órfã de um dos mais antigos e tradicionais estabelecimentos comerciais da Cidade. A Casa São João, que há 84 anos faz história atendendo os clientes no número 461 da Rua Coronel Souza Franco, na região central, encerrará as atividades iniciadas em 1932 por Salim Salomão Cury e Luiza Borges Cury e assumidas, anos mais tarde, pelo filho do casal, Wilson Salomão Cury, falecido em 2014, e por sua mulher, Maria Helena Carneiro Cury, 80. O futuro do prédio está sendo definido pelos novos proprietários, a família de Jorge Cury – que há 86 anos está à frente das lojas Sucena, nos segmentos de tecidos, armarinhos e brinquedos.
Após a morte do marido – que fazia questão de lembrar ter nascido pelas mãos de uma parteira, na casa onde a família morava, nos fundos da loja -, Heleninha, como é conhecida na Cidade, passou a comandar o comércio. Ora estava atrás do balcão, atendendo os fregueses de todas as idades e, na maioria das vezes, a terceira geração dos primeiros clientes da Casa, ora diante da antiga caixa registradora que costumava abrir para mostrar às crianças.
Esta era uma das relíquias da São João, que teve início como armazém de secos e molhados antes de começar a vender tecidos, aviamentos, armarinhos em geral, além de fantasias, sempre no endereço da Coronel Souza Franco, em frente ao Mercado Municipal, e sob o comando da mesma família. Ali, os Cury também guardavam uma bandeira da Revolução Constitucionalista de 1932, deixada por um soldado em troca de um pedaço de tecido, e prontamente mostrada a quem se interessasse por um pouco de história.
A loja marcou época entre estilistas, costureiras, bordadeiras, mogianos e até pessoas vindas de outras cidades da Região em busca de seus produtos ou de alguma mercadoria dificilmente encontrada por aqui, mas trazida da Capital sob encomenda pelo casal de comerciantes, que não mediam esforços para atender as necessidades da fiel clientela.
Em épocas de festas, principalmente Carnaval, Halloween e outras temáticas promovidas por escolas e universitários, a São João sempre se destacou como um dos endereços mais requisitados, já que ali era certo encontrar flores em tecidos, pedras de strass, contas para colares, botões diferenciados, adesivos para tecidos, colares havaianos, vidrilhos, miçangas, perucas, chapéus, cartolas, penas, plumas e tudo mais que fosse necessário. “Se não tivéssemos o que a pessoa queria, fazíamos de tudo para conseguir e, muitas vezes, íamos para São Paulo buscar”, conta Heleninha.
Por isso é que, diante de tantas lembranças, a comerciante e professora aposentada se emociona ao relembrar a trajetória da loja, de onde sai contra a vontade. “Meu sogro havia passado o prédio para uma neta, que o vendeu após a morte do Wilson e, agora, tenho que entregá-lo aos novos donos. Quando o Wilson morreu, fiz de tudo para manter o comércio, preservando sua história, mas infelizmente é preciso dar adeus à querida Casa São João”, lamenta, tentando resumir o assunto a fim de conter as lágrimas. “Não consigo falar muito. Para mim é difícil, porque minha vida está aqui”, relata. (leia nesta página a carta enviada a O Diário por ela).
Há algumas semanas, quem passa em frente ao prédio da Coronel Souza Franco avista uma enorme faixa com os dizeres “Liquidação Total”. Ali, fantasias são vendidas com 50% de desconto e outros produtos de armarinhos em geral têm preços especiais a fim de zerar o estoque até o próximo dia 31.

 

Costureiras e clientes destacam atendimento

Costureiras, bordadeiras, estilistas e os clientes acostumados há décadas a recorrer à Casa São João para comprar tecidos, acessórios de costura em geral e fantasias para festas temáticas já lamentam a perda de um dos mais antigos estabelecimentos comerciais da Cidade.
Perto da loja, na Rua Presidente Rodrigues Alves, as profissionais de uma oficina de costuras são antigas clientes da São João. “Ali sempre compramos tudo o que precisamos para trabalhar, como linhas, botões, zíperes e aviamentos. Caso não encontrássemos alguma mercadoria, não era necessário ir até São Paulo porque o saudoso seu Wilson e a dona Heleninha nos traziam de lá quando iam fazer compras. O atendimento era o diferencial. Além disso, eles me ajudaram demais nos indicando clientes quando começamos com a oficina. Vamos sentir falta”, diz a mogiana Luiza Satiko Kumagai, 69 anos, que comanda a equipe de costureiras da oficina.
Outra antiga cliente, a professora aposentada Maria Aparecida Hardt Pires, a Cidinha, também considera que Mogi perde com o fechamento da Casa São João. “Sempre comprava aviamentos, fantasias para meus filhos, principalmente no Carnaval, e quando meu marido Roberto (Pires) foi presidente do Clube de Campo, buscávamos lá os enfeites para as festas. Além disso, sempre tivemos o Wilson e a Heleninha como grande amigos. A loja marcou época na Cidade e se tornou referência. Quando eu era solteira, lembro que minha tia Nair Witter era costureira e tinha uma escola de corte e costura, então, comprava muitos materiais na São João. Era o auge das roupas feitas sob medida, por costureiras, e não precisávamos ir a São Paulo para buscar tecidos e aviamentos. Tínhamos tudo na loja”, relembra Cidinha.

 

O adeus à Casa São João

Maria Helena Carneiro Cury



É uma fase difícil e triste a que estou vivendo. Jamais pensei em passar por isso, mas não tem como, então vamos enfrentar. Há 84 anos, em 1932, meu sogro, Sr. Salim Cury, inaugurou esta loja denominada “Casa São João”, onde estamos até hoje. Pelas histórias contadas pelo meu querido esposo, Wilson Cury, falecido há 2 anos, sei algumas histórias como, por exemplo, que Wilson tinha o maior orgulho de dizer que havia nascido dentro da loja, com ajuda de uma parteira há 80 anos.
A loja funcionava na frente e na parte de trás era a moradia onde ele, os pais e mais uma irmã e um irmão moravam. O Sr. Salim e a família batalharam muito, mas dos irmãos foi o Wilson que ficou com o pai trabalhando. Ele era professor de Matemática, deu alguns anos de aula, mas resolveu se dedicar só ao comércio.
Após alguns anos, o Sr. Salim passou o prédio para uma neta.
Eu só vim ajudar o Wilson depois de aposentada, sendo que fui professora durante 28 anos pela Prefeitura Municipal de Mogi das Cruzes, tendo me aposentado na Escola Municipal de Educação Infantil (Emei) Monteiro Lobato, do bairro da Ponte Grande, como diretora. Gosto muito do comércio, mas era apenas uma ajudante. Com a morte do Wilson, tive que me preparar para assumir a loja. Por sorte tenho funcionárias maravilhosas, que me ajudam a trabalhar.
Depois da morte do Wilson, a sobrinha vendeu o imóvel, o comprador pediu para entregar e, por isso, eu tenho que sair até o final de agosto.
Por este motivo vamos encerrar as atividades, mas com todo amor quero agradecer a todos os comerciantes amigos que circundam a loja e todas as ruas próximas.
Quero agradecer a todos os comerciantes e amigos do Mercado Municipal que me ouvem com carinho e me ajudam a enfrentar todas as dificuldades. Não vou citar nomes para não me esquecer de ninguém. A todos os fregueses amigos que me ajudaram a chegar até aqui, o meu muito obrigado.
Aos meus funcionários amigos, meu eterno agradecimento. Quero agradecer de forma bem carinhosa a Adriana, funcionária de mais de 15 anos. Ela é minha mão direito em tudo. Aprendeu muito com o Wilson, inclusive indo até São Paulo para comprar mercadorias. A ela, meu eterno agradecimento.
Mais uma vez, meu eterno obrigado a todos os funcionários amigos e aos fregueses também amigos. Deus abençoe a todos.
“Adeus, querida Casa São João”.

Maria Helena Carneiro Cury é professora aposentada e comerciante.

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