Carta para minha filha Mariana

Querida FilhaNa semana passada você escreveu nas redes sociais: “Não consigo expressar a alegria e o sentimento de superação de ter conseguido terminar essa travessia. É uma luta diária viver com dor crônica, uma dor que é a própria doença. Há 16 anos convivo com ela, e há dois anos eu aprendi a controlá-la através de cuidados e compromissos diários. E está aí o resultado, que faz todo o esforço valer a pena. Queria compartilhar essa alegria com todos que me apoiaram sempre. Minha mãe nas inúmeras salas de espera em médicos, exames, hospitais e clínicas de fisioterapia. Meu pai e minhas irmãs que cuidaram de mim nos muitos dias de dores. Teite quando eu parecia uma “minhoquinha no asfalto” no sofá de casa. Todos os meus amigos que entenderam a cada programa que eu furei porque estava com dor. E João que acreditou que essa viagem ia ser incrível e foi minha fonte de energia todos os dias. Hoje eu choro e não é de dor. É felicidade”

Este “Velho Ogro” é sentimental. Li o seu texto e chorei um bocado. Penso que as lágrimas continham algum alucinógeno. Viajei no tempo…

O seu nascimento e o da Laura. Pouco depois de um ano, a chegada da Adriana. A pré-escola. Nossas viagens. Os sucessos escolares das três filhas. As partidas de papai e mamãe. Os Natais e as reuniões de família. O aparecimento da sua “maldita” dor crônica. O imenso sofrimento durante suas crises. Apesar disso, sempre fomos felizes. Muito felizes.

No texto você fala em superação. Esta é a palavra que sempre a acompanhou, apesar da famigerada dor. Ingressou na USP aos 17 anos, sem cursinho. Frequentou um ano de engenharia na Alemanha. Prestou serviços sociais na África. Cursou mestrado no Colorado. Mas, acima de tudo, Você se superou como filha e irmã. Nesses anos, Mamãe, suas Irmãs e eu sofremos com sua dor, embora, muitas vezes, tenhamos tentado disfarçar. Apesar disso, a alegria que você nos proporcionou foi muito maior.

Papai (seu avô) utilizava uma expressão muito forte, que a uso hoje: “Deus não me deve nada”. Saiba que quanto mais me aproximo do “Porto Eternidade” a sua felicidade e a das suas irmãs é a minha felicidade.

Desculpe se escrevi muito (os jovens não têm paciência). Adaptando sua linda frase: “Hoje eu choro”, mas não é por causa da sua dor. “É felicidade”.

Um grande beijo do seu “Velho Ogro”.

Perseu Gentil Negrão é procurador de Justiça do Ministério Público de São Paulo