Após 53 anos, tradicional loja Paratodos fecha as portas - O Diário - Mogi das Cruzes , Suzano e Região do Alto Tiete

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Após 53 anos, tradicional loja Paratodos fecha as portas

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Clientes compram as últimas peças colocadas em promoção. (Foto: Eisner Soares)

Clientes compram as últimas peças colocadas em promoção. (Foto: Eisner Soares)

CARLA OLIVO
O comércio de Mogi das Cruzes, que nos últimos anos passa por mudanças significativas com o fechamento de antigos estabelecimentos comandados por famílias tradicionais da Cidade diante da crescente popularização do setor, registrará mais uma baixa nas próximas semanas. Devido à forte concorrência com as grandes redes e a insegurança gerada pela crise econômica do País, a Loja Paratodos, com 53 anos de atividades na Rua Dr. Deodato Wertheimer, no Centro, liquida o estoque oferecendo descontos de até 50% nas peças que ocupam apenas dois corredores do amplo prédio de 200 metros quadrados.

Quando a Paratodos abriu as portas nas proximidades do Largo do Rosário, no imóvel hoje ocupado por parte da Lojas Marisa, vendia brinquedos, armarinhos, roupas e artigos de papelaria e escolares. De início, o comércio era comandado pelos irmãos Hideo e Massao Makino – este último deixou a sociedade 5 anos depois e abriu estabelecimento homônimo ainda hoje em atividade na cidade de São José dos Campos. Em Mogi, Hideo, atualmente com 87 anos, passou a contar com a ajuda da mulher, Koiko Tereza Makino, hoje aos 83.

“Meu pai veio do Japão aos 7 anos, com a família, que foi trabalhar na lavoura de café em Pacaembu, no Interior. Minha mãe nasceu em Lins. Anos depois de casados, eles vieram para Mogi, onde meu tio Kazuo Makino já tinha a Nossa Loja, e não saíram mais daqui”, conta o arquiteto Nelson Makino, 56, filho único do casal, que há duas décadas entrou na sociedade e, há 10 anos, compartilha a administração do negócio.

Após uma década no primeiro endereço – onde os clientes costumavam encomendar os presentes de Natal dos filhos já em junho para pagá-los em prestações mensais até dezembro e, então, o levarem para casa -, os Makino trouxeram a Paratodos para o pavimento térreo do prédio próprio na esquina da via com a Rua Barão de Jaceguai, próximo à Praça Oswaldo Cruz. No andar superior Hideo e Tereza ainda moram.

“A antiga Paratodos, com brinquedos, armarinhos e papelaria, continuou funcionando com os meus tios Helena e Domingos e fechou anos depois. Meus pais passaram a vender roupas masculinas, femininas e para gestantes na segunda loja, que de 15 anos para cá tem exclusivamente enxovais para bebês e moda infantil e para adolescentes até 16 anos de idade”, explica Nelson, que negocia o aluguel do prédio com uma grande rede.

Ele não revelou o nome do grupo com o qual está em contato, mas disse que o local poderá receber uma loja de confecções ou de cosméticos. “Isso deve acontecer nas próximas semanas. Não tenho data para fechar a loja e vou continuar aqui até acertar o negócio. Hoje é mais lucrativo alugar o imóvel do que concorrer com grandes redes que compram em quantidade maior, pagam menos e vendem mais barato. Somos conhecidos pelas peças de qualidade, de marcas conceituadas, a preços atrativos. Mas hoje isso não é mais possível e, por causa da crise, o consumidor opta pelas lojas populares. Fechar é uma decisão difícil, mas só temos a agradecer aos clientes, que tivemos a alegria de atender, funcionários e colaboradores que nos prestigiaram ao longo dos anos, pela confiança e oportunidade de servir”, conclui Nelson.

A mudança no perfil do consumidor é confirmada pela supervisora da Paratodos, Andréia Cardoso Silva, 43, que conhece a família Makino há 30 anos e atua na loja há 7. “Hoje as pessoas procuram produtos mais em conta, apesar da qualidade inferior”, diz, acrescentando que a filha Thayane, 20, também trabalha no local, por onde já passaram suas irmãs e cunhadas. “É uma pena a Paratodos fechar”, lamenta.

Agora, dona Heleninha auxilia Adriana na Nova Casa São João
Os clientes da antiga Casa São João, comandada durante 84 anos pela família Cury na Rua Coronel Souza Franco, 461, no Centro de Mogi, não ficaram desamparados. Assim que foi informada por Maria Helena Carneiro Cury, a dona Heleninha, hoje com 81 anos, sobre o fechamento do tradicional estabelecimento comercial que até 3 de setembro do ano passado atendia terceira geração de seus primeiros fregueses na Cidade, Adriana de Souza, 42, que trabalhava no local há 18 anos, anunciou que daria continuidade aos negócios e abriu, no mesmo mês de 2016, a Nova Casa São João, no número 539 da Coronel.



Heleninha continua atendendo os antigos clientes. (Foto: Eisner Soares)

Heleninha continua atendendo os antigos clientes. (Foto: Eisner Soares)

A surpresa foi o convite que dona Heleninha recebeu: ser sua funcionária. A professora aposentada, que nos últimos anos se dedicou exclusivamente ao comércio ao lado do marido Wilson Cury e após sua morte, em 2014, passou a comandar o estabelecimento, aceitou o desafio de pronto. “Foi o melhor que poderia ter acontecido. Parece até que rejuvenesci quando comecei a vir aqui todos os dias, onde continuo fazendo o que mais gosto na vida, que é lidar com o público, atender as pessoas, conversar… Sei o gosto da maioria. Estou muito feliz”, contou a veterana atendente que continua recebendo grande parte de seus antigos clientes na nova loja comandada por sua fiel funcionária.

“Quando ela falou que abriria a loja e me convidou para vir ajudá-la, ofereci os produtos que sobraram na São João, assim como os balcões e armários. Ela trouxe tudo. E como só sei dirigir Fusca e o carro do meu marido é um Corolla automático, a Adriana e o marido (Sérgio Molina, 45 anos), que moram na Vila Natal, passam na minha casa, na Vila Oliveira, todos os dias e me trazem para a loja. Na volta, meu neto vem me buscar ou eles me levam novamente”, conta dona Heleninha.

A nova rotina trouxe o entusiasmo de volta à vida da comerciante. “No começo fiquei distribuindo cartões na porta para anunciar às pessoas que a São João teria continuidade. Até brincavam dizendo que eu parecia ser candidata à vereadora, já que era época de eleições (risos). Como conheço quase todo mundo na Cidade, os clientes e amigos continuaram vindo aqui comprar tecidos e aviamentos, assim como faziam no antigo endereço. Alguns aparecem só para conversar comigo. E é uma satisfação recebê-los”, completa, lembrando que outra ex-funcionária da antiga São João, Luciana Rodrigues de Siqueira, 37 anos, divide com ela o balcão da nova loja. “Só mudamos de local de trabalho”, finaliza.

Acostumada a fazer as compras de materiais para a loja desde os tempos em que o estabelecimento era comandado por seu patrão, Wilson Cury, Adriana não tem dificuldades com a tarefa de administrar o negócio próprio. “Sempre gostei de trabalhar lá e quando ela me disse que a São João fecharia, perguntei se gostaria de abri-la em outro local, mas como ela disse que não queria, decidi abrir a nova loja e a convidei para vir comigo. Fiquei feliz por ter aceitado porque ela tem muita experiência, conhece todo mundo e aqui acaba se distraindo. Assim, acredito que se sente valorizada e para nós é um prazer tê-la conosco”, revela a nova empreendedora.

Assim, a história da São João continua na Cidade.

Grandes redes e artigos populares mudam perfil
Terceiro gerador de empregos diretos e, consequentemente, de renda e postos indiretos de trabalho, o comércio mogiano se caracteriza, nos últimos anos, pela instalação de lojas de produtos populares – a maioria comandada por chineses e com preços (antes, anunciados) a partir de R$ 1,99 -, além da descentralização dos polos de vendas para os bairros e distritos. Tal cenário, aliado à pesada carga tributária imposta aos lojistas, contribui para que comerciantes de famílias tradicionais da Cidade decidam encerrar a carreira no setor no qual sempre fizeram história e trilhar outros caminhos.

Bastam alguns minutos de conversa com consumidores mogianos para trazer à mente lembranças de estabelecimentos comerciais que marcaram época, mas fecharam as portas, como as casas Oliveira (materiais de construção), Hélio (eletrodomésticos e móveis), Manna (alumínio, porcelanas, vidros, cutelaria, papelaria, artigos escolares, brinquedos e miudezas), Doxa (joalheira e relojoaria) e Mogilar (utilidades domésticas e presentes); Calçados São José e Kimura; Livroeton (livros, discos e materiais escolares); Relojoaria e Joalheria Cruzeiro; BBC Modas, Meyer Magazine, Carpes, Belver (roupas); Java (ferragens); Mogi Cosméticos (perfumaria e produtos de beleza); São João (armarinhos); Bazar Urupema (papelaria), entre outras.

Mas há aquelas que resistem às mudanças trazidas pelos tempos modernos, como as lojas Sucena e Iague (tecidos); Universal, Marilys e Nizuma (roupas); Relojoaria Rubi; e outras.



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