Antonietta Nair Cosmai Fioresi, 'O Largo da Matriz que eu vivi' - O Diário - Mogi das Cruzes , Suzano e Região do Alto Tiete
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Antonietta Nair Cosmai Fioresi, ‘O Largo da Matriz que eu vivi’

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Antonietta Nair Cosmai Fioresi, 90 anos. (Foto: Eisner Soares)

Antonietta Nair Cosmai Fioresi, 90 anos. (Foto: Eisner Soares)

CARLA OLIVO
As festas da padroeira Santana, do Divino Espírito Santo e juninas no antigo Largo da Matriz, hoje Praça Coronel Almeida, com barracas de comes e bebes típicos, bingo, pau-de-sebo, mastro com a bandeira do santo homenageado e brincadeiras infantis ficaram na memória de Antonietta Nair Cosmai Fioresi, que completou 90 anos na última terça-feira. Paulistana, ela fez os estudos até o colegial na Capital, onde casou-se com o contador Atos Pedro Fioresi – anos mais tarde administrador de condomínios e síndico. Em 1957, já com os três filhos, o casal veio morar no número 268 da Rua José Bonifácio, em Mogi das Cruzes, para o patriarca da família trabalhar na antiga Padovani Móveis até tornar-se sócio dos patrões na Mogilar Móveis. No final da década de 50 e início dos anos 60, Antonietta viu os filhos brincarem livremente na rua e no Largo, assistiu às principais procissões religiosas da janela de sua casa e acompanhou as mudanças naquela região da Cidade, onde moravam várias famílias tradicionais mogianas. Logo que aqui chegou, ela começou a se envolver em atividades assistenciais, participou da fundação do grupo de voluntárias da Santa Casa de Mogi, está há 48 anos na Casa da Amizade e se dedica há 55 anos à Rede de Combate ao Câncer Guiomar Pinheiro Franco. Dinâmica e dona de uma memória invejável, além de preparar pratos doces e salgados na cozinha, Antonietta tem como distração confeccionar enxovais em crochê para atender encomendas das amigas. Na entrevista a O Diário, ela compartilha com os leitores suas histórias vividas na Cidade:

Quais lembranças ficaram da infância e juventude na Capital?
Tive uma infância boa, com meus pais (José Cosmai e Irene Cirillo Cosmai), morando na Rua Ernesto de Castro, no bairro da Mooca, onde nasci. Ele era entalhador e fazia várias peças maravilhosas em madeira, além de detalhes de móveis, como sofás e cadeiras. Já minha mãe cuidava da casa e dos filhos (Ilda Isabel, Antonietta e João). Fiz o primário no Grupo Escolar Romão Puiggari, em frente à Igreja Sagrado Coração de Jesus, no Brás, e depois estudei dois anos de Contabilidade no Colégio 30 de Outubro. Mas comecei a namorar aos 14 anos e, na época, como o namoro era para casar, pensava-se que a mulher não precisava mais estudar porque logo se casaria e iria cuidar da casa e dos filhos, não tendo necessidade de trabalhar fora. Por isso, meus pais me tiraram de lá. Os tempos eram outros. Eu conheci meu marido em um batizado da família, namoramos sete anos e esperamos minha irmã mais velha se casar para depois marcamos o nosso casamento, quando eu já estava com 21 anos. Esta também era outra regra da época: os irmãos mais velhos se casavam primeiro do que os mais novos.

Por que a vinda para Mogi?
Após o casamento, morei em São Paulo, fui para Santo André e ainda voltei para a Capital antes de vir para Mogi. Foi em 1957 que nos mudamos para cá porque meu marido veio trabalhar como contador na antiga fábrica de móveis Padovani. Depois, ele se tornou sócio dos proprietários de lá, assim como outros funcionários, e juntos fundaram a Mogilar Móveis, nas proximidades do Colégio Adventista. Já quando estava aposentado, foi um dos primeiros administradores de edifícios e síndico de Mogi, trabalhou no Rio Negro, onde moramos, no Isidoro Boucault, Stella Maris, entre outros prédios da Cidade.

Qual a primeira impressão quando chegou aqui?
Eu já conhecia Mogi porque quando ainda era noiva do meu marido, sempre vinha acompanhar minha sogra (Ines), nas visitas que ela fazia aos netos Ines e Fernando, filhos dos meus cunhados Tosca e Valdemar, que moraram na Avenida (Voluntário Fernando Pinheiro Franco), em frente ao Banco do Brasil, onde hoje está a Droga Raia. Nós viajávamos de São Paulo para cá no trem Maria da Fumaça, que levava quase duas horas. Vínhamos de manhã, passávamos o dia aqui e voltávamos só no final da tarde para a Capital. Então, quando nos mudamos para cá, já conhecia bastante gente e a Miriam, filha da Cida Briquet, minha vizinha, ajudou na minha mudança. Gostei de vir para Mogi, a Cidade era bastante tranquila, não havia perigo, poucos tinham carro e a maioria andava a pé a qualquer hora do dia ou da noite sem qualquer problema. Não existia maldade e muito menos violência. Quando minha filha Irene participava da fanfarra do Instituto de Educação (Dr. Washington Luís), eu e a Ruth, mãe da Rose Muniz, íamos buscar nossas filhas de madrugada, a pé, ali do Largo do Carmo até a escola, no retorno das viagens para disputa de campeonatos. Mas apesar da tranquilidade daqui, sentia muita falta saudade dos meus pais e chorava quando ia ao prédio da Telefônica para falar com eles no telefone.

Onde a família morou?
Moramos muitos anos na casa de número 268 da Rua José Bonifácio, em frente ao Largo da Matriz (hoje Praça Coronel Almeida), no Centro, que era do meu cunhado Valdemar Almeida do Prado, conhecido como Vavá, que trabalhava no cartório dos Arouche de Toledo, na mesma rua. Ali, além da Cida Briquet, tive vizinhos como o Oscar e a professora de Trabalhos Manuais, Maria Mello Freire; a dona Faustina e o seu Pedro, avós do Cuco (José Antônio Cuco Pereira, vereador), que vi de calças curtas; os Maia, avós do Nilton do Alabarce, entre outros. Éramos como uma família, um ajudava o outro sempre que preciso, os filhos brincavam juntos na rua, onde quase não passavam carros, e participávamos de festas e eventos que aconteciam ali no Largo.

Quais recordações ficaram destas festas?
As festas de Santana, do Divino Espírito Santo e juninas eram no Largo da Matriz, onde havia a quermesse com barracas de salgados, churrasco, canja, doces, brincadeiras, cadeia do amor, bingo com várias prendas, incluindo frango assado e garrafas de vinho, além do pau-de-sebo e do mastro com a bandeira do santo que era homenageado. As festas juninas organizadas pela dona Luísa, mãe do Wilson Cury, da Casa São João, também no Largo da Matriz, eram muito animadas. Eu participava e, quando não ia até lá, via tudo da minha janela. Nos dias de procissão, a turma costumava ir em casa para assistir de lá.

E os preparativos para a Festa do Divino?
Na Festa do Divino, o império ficava atrás da Matriz, onde depois funcionou a Casa da Criança, mas com o tempo passou para o Largo também. Os doces eram preparados na casa das famílias, mesmo porque a festa era menor e não recebia tanto público como hoje. Eram mais as pessoas de Mogi que participavam das quermesses realizadas no Largo. Depois é que a festa foi crescendo demais e as barracas tiveram que ser montadas em outros locais porque já não era mais possível receber tanta gente ali.

Os filhos estudaram no Grupo Escolar Coronel Almeida?
Estávamos em frente ao Grupo Escolar Coronel Almeida, onde a maioria das crianças daquela região da Cidade estudava. Minha casa vivia cheia de amigos dos meus filhos que estudavam ali e mesmo depois, quando eles foram para o Instituto de Educação (Dr. Washington Luís). Eles costumavam me chamar de dona Neta e até hoje, quando me encontram na rua, lembram que minha casa tinha cheiro de maçã, porque eu costumava encher a fruteira para eles. Na José Bonifácio havia o armazém do Pedro japonês, que depois montou um dos primeiros supermercados da Cidade na mesma rua, onde hoje está uma loja de descartáveis e artigos para festas (Plastipel). Ali comprava várias coisas para a casa, mas também ia a São Paulo aos finais de semana visitar meus pais e fazia compras lá. De início, viajávamos de trem, mas depois meu marido comprou um Ford Perfecta e ficou mais fácil.



O que mais havia naquela região?
Era costume assistir à missa aos domingos, às 10 horas, na Catedral, e depois almoçar na Cantina Mogiana, do seu Giorgetti; no Restaurante Antarctica, onde havia uma canja muito boa; ou no Estância dos Reis, da dona Helena Barattino, que já era mais afastado do Centro. Na Dr. Deodato (Wertheimer), ficava a Leiteria Glória, onde havia sorvetes, doces e um maravilhoso chantilly; o Palhaço Lanches, do casal Paulo e Tereza Passos; e na Ricardo Vilela era a Pizzaria Maracanã, do Paulo de Carvalho, também muito frequentada. Na José Bonifácio ficava o curso preparatório das professoras Iracema Brasil de Siqueira, Jovita Franco Arouche e Etelvina Salustiano, que moravam ali por perto. As salas eram na área onde hoje está um estacionamento, na lateral da Catedral. Aquela região da Rua José Bonifácio era residencial, ao contrário de hoje, quando só há comércios por lá. No Largo, mulheres como Zezé Arouche, Zezé Pires, Therezinha Franco e outras passavam horas conversando, fazendo tricô, crochê ou bordados. As crianças levavam as bonecas e até comidas para brincar ali. Era o ponto de encontro das famílias.

Onde mais a família morou?
Como ali pagávamos aluguel, depois fomos para a Rua Barão de Jaceguai, em frente ao Cartório e ao lado do Banco do Brasil. Em 1971, compramos dois apartamentos no Edifício Rio Negro, que foi um dos primeiros da Cidade, mas depois que nossos filhos se casaram, vendemos um deles para a dona Maria Minami, e ficamos no outro. Minha família foi a segunda a morar no prédio, onde conheço todo mundo.

Ficaram outras recordações da Mogi das Cruzes de antigamente?
Comprava roupas na BBC Modas, do pai do Mutso Yoshizawa, e na Meyer Magazine; fazia sapatos sob medida e da mesma cor das bolsas no Mehlmann; frequentávamos os bailes do Itapeti Clube, animados por orquestras de São Paulo, do Clube Náutico e do Clube de Campo, na época em que as mulheres iam de vestidos longos e sapatos de salto alto e os homens usavam terno e gravata. Até mesmo ao cinema todos iam bem vestidos, não era como hoje em que a maioria das pessoas sai de calça jeans, camiseta e tênis pela rua. Aos sábados íamos ao Avenida e aos domingos os Urupema. Havia também os passeios na Dr. Deodato e no jardim (Praça Oswaldo Cruz) para os jovens. Mogi só começou a mudar com a instalação das universidades que trouxeram muita gente de fora para cá.

E o envolvimento com o voluntariado?
Desde que cheguei aqui comecei a participar como voluntária com a Guiomar, que também morava na José Bonifácio, no casarão onde hoje funciona o museu da família, na Rede de Combate ao Câncer, onde estou há 55 anos. Depois, meu marido foi presidente duas vezes do Rotary e da Associação dos Rotarianos, então, estou envolvida na Casa da Amizade há 48 anos. Também fiz parte do grupo de oração que deu origem à turma de voluntárias da Santa Casa, com a Ilda Brito, mulher do Dr. Rubens Brito, Lourdes Cruz, esposa do Dr. Milton Cruz, Maria Minami, Loreta, Maria Cury, entre outras. O hospital estava abandonado, pintávamos paredes, fazíamos lençol e ajudávamos no que era preciso. Lá fiquei 10 anos, mas quando meus pais passaram a precisar de mim, mantive as atividades apenas na Rede Feminina e na Casa da Amizade, onde continuo até hoje.

Por que a dedicação a este trabalho?
Gosto de ajudar e assim me sinto bem. Deus me livre de ficar em casa sem fazer nada. Sempre fui muito dinâmica e não tenho paciência nem para sentar e assistir à televisão. Antes, fazia caminhada por toda a Cidade, junto com a Dulce Romero Conde e a Adélia Andere, mas depois tive problemas na coluna e joelho e ficou mais difícil. Mas mesmo assim, minhas amigas passam de carro para me levar de carona ou chamo táxi, mas não fico parada. E se estou em casa, arrumo o que fazer, como as peças em crochê para enxovais de bebês que as amigas encomendam, ou algum prato doce ou salgado, porque também adoro cozinhar.

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