Ai, que medo!

Ah, os medos da infância, da mocidade, da vida.
Mudam os motivos. Ficam os arrepios, os cabelos eriçados na nuca, a adrenalina.

Provavelmente, os primeiros sustos são a ausência, mesmo momentânea, da presença e do calor da mãe.

Depois, vêm aquelas caras esquisitas, desconhecidas, que aparecem de repente, quando ainda estamos no colo. E haja choro de susto.

Os primeiros passos, os tombos, e o aprendizado com a dor da cabeçada, da mão presa na porta, da topada. E o medo da repetição dessas “aulas” doloridas.

Há insetos horrorosos que nos picam? Haja um tantinho de medo pra eles!

Cachorro brabo? Melhor não chegar perto. De medo.

E gente braba? Às vezes, não dá pra não chegar perto. São da família. Daí, sobra medo misturado com resignação. É horrível. E dá belas neuras pro resto da vida.

Professores também são bons candidatos aos troféus de reis do susto. Quando não nos dão o melhor de si nas aulas e exigem o melhor de nós para as notas.

Fora as provas sem aviso.

Mas já foi pior, reconheçamos.

Quando havia o medo dos castigos físicos: ajoelhar no milho, palmatória (que doía adoidado) e a velha reguada na cabeça.

Eu levei uma, enquanto desenhava, escondidinho na última carteira, desatento à aula.

Coincidência ou não, minhas notas baixaram e quase não alcanço média para o diploma do primário. E morri de medo disso.

Nos anos seguintes, com professores menos tensos, voltou meu rendimento escolar e foi sumindo o meu medo dos professores.

Mas daí vieram outros tipos de medo: o de “levar tábua” no baile; de levar o contra da namorada; de deixar de ser amado; de não poder ter filhos; ou de tê-los, sem saúde; de não poder cuidar bem da família; de ficar sem a família; de perder o emprego; de perder a saúde; de perder a consciência…

É um rol infindável de medos. Que nos acompanham, nos assustam, enchem consultórios de psicanalistas, igrejas, templos, terreiros.

Sem que entendamos exatamente pra que serve toda essa insegurança.

Dizem alguns que é uma forma de defesa de todos os seres vivos. Sem o medo pularíamos em abismos, teríamos tentado encarar desde os dinossauros até um trem em alta velocidade. Não fugiríamos do inimigo mais poderoso. Não arquitetaríamos defesas e fugas salvadoras.

Se é assim, viva o medo e suas milhares de formas. Desde o temor pueril do Cebolinha a uma coelhada da Mônica, passando pelo medo induzido pelos filmes e histórias de terror, até chegarmos ao medo final, incontrolável, sem fuga, que nos espera no nosso último momento: o que há do outro lado? É pra ter medo?… ou…