A saga de um italiano rumo a Mogi - O Diário - Mogi das Cruzes , Suzano e Região do Alto Tiete
Fechar

           CIDADES

A saga de um italiano rumo a Mogi

Cidades

MEMÓRIAS  Aos 79 anos, o italiano Vittorio Di Bello relembra histórias vividas em Mogi das Cruzes, onde chegou em 1966 / Foto: Eisner Soares

MEMÓRIAS Aos 79 anos, o italiano Vittorio Di Bello relembra histórias vividas em Mogi das Cruzes, onde chegou em 1966 / Foto: Eisner Soares

Era uma manhã tranquila na pequena Pennapiedimonte, província italiana de Chieti, quando a família Di Bello foi acordada com batidas de fuzis na porta de entrada da casa e sob gritos de soldados alemães a expulsando de casa. Quem conta esta e muitas outras histórias em detalhes é o italiano Vittorio Di Bello, que aos 7 anos conviveu de perto com cenas marcantes da 2ª Guerra Mundial, encerrada como um presente no dia de seu aniversário: 8 de maio de 1945. Apesar das dificuldades, ele relembra a infância e juventude vividas em sua terra natal com o sorriso estampado no rosto, digno de quem venceu na vida a custo de muito trabalho. Aos 11 anos, Vittorio acordava às 4 horas em pleno inverno da Itália para ajudar o pai, Isaia Di Bello, a carregar pedras de rochas dinamitadas usadas em construções. Em seguida, foi aprendiz de pedreiro até a vinda para o Brasil. Em 31 de dezembro de 1953, em busca de melhores oportunidades, a família deixou a região dos Abruzos, com vista privilegiada do Mar Adriático, para embarcar na viagem de quase um mês a bordo do navio que a trouxe até o Porto de Santos, em São Paulo. Primeiramente, eles moraram na Zona Norte da Capital Paulista, onde Vittorio passou por carpintaria, restaurante e lanchonete, até começar a vendar especiarias compradas diretamente da fábrica. Em 1966, ele chegou a Mogi das Cruzes e montou uma pedreira ao lado do irmão Rocco, no Distrito de Biritiba Ussu. Quatro anos depois, a sociedade se desfez e Vittorio comprou a área no Mogilar onde, em 27 de maio de 1972, inaugurou seu primeiro posto de combustíveis, o Expedicionário, recentemente reassumido por ele. O italiano que aos 79 anos não pensa em parar de trabalhar e se considera ‘mogiano de coração’ foi comissário de menores durante sete anos e há mais de duas décadas atua como diretor-adjunto da Associação Comercial de Mogi das Cruzes (ACMC). Na entrevista a O Diário, ele compartilha suas histórias com os leitores: (Carla Olivo)

Quais as lembranças da infância na Itália?
Pennapiedimonte, onde nasci, é uma das regiões mais antigas e também mais verdes da Europa, com vários parques como o Parque Nacional da Itália. Fica a 600 metros de altitude, ao pé da montanha, de onde se tem um visual bonito do Mar Adriático, e tem hoje pouco mais de 500 habitantes. Na parte de baixo da Cidade há grutas, por isso, durante a 2ª Guerra, foi considerada estratégica para os alemães que a ocuparam durante 11 meses. Nesta época, com apenas 7 anos, vivenciei tudo isso. Em uma manhã, fomos acordados com as batidas de fuzis na porta de casa e gritos dos alemães. Sem entender o que eles diziam, minha mãe (Grazia Carideo Di Bello) preparou um pacote de roupas às pressas e fomos levados até à praça com várias outras famílias.

De lá, para onde vocês foram levados?
Dali as pessoas eram transportadas em caminhões e lembro que na hora em que minha mãe me levantou para me colocar em um deles, os soldados fecharam a porta traseira e ela me puxou rapidamente para baixo, porque senão eu seria levado sozinho por eles, sabe-se lá para onde. Como os caminhões não voltaram, eu, minha mãe e dois irmãos fomos para um galpão, com outras 30 pessoas, na entrada da Cidade, onde já havíamos morado. Meu pai teve de ir trabalhar para os alemães, fazendo trincheiras, até que um dia o encontramos na volta do trabalho, agarramos em suas pernas e ele decidiu nos levar para a cidade vizinha, Palombaro, que havia sido ocupada pelas tropas americanas. Levamos dois dias para atravessar a montanha a pé, com este grupo de 30 pessoas. Dormimos no chão, um do lado do outro, para nos esquentarmos, já que o inverno era rigoroso. Também passamos a noite em um galpão e numa gruta onde um pastor criava ovelhas e nos preparou sopa. Em Palombaro, cada um conhecia alguém e foi conseguindo abrigo.

E sua família?
Nós ficamos no acampamento americano, onde um soldado de 20 anos praticamente me adotou, já que meus pais passavam o dia todo cortando trigo atrás da fronteira para ganhar algum trocado. Este moço sempre guardava metade do café da manhã, do almoço e do jantar para me dar e também fez uma réplica de espingarda com bambu para que eu ficasse com ele de sentinela, na trincheira. Houve várias batalhas, porém na mais sangrenta, morreram mil alemães e 1,5 mil americanos. Com o tempo, este regimento americano mudou e eu andava uma longa distância para levar ovos e outros alimentos para ele. Até que um dia o comandante me mostrou a capa deste soldado cheia de sangue e me disse que ele tinha ficado ferido em um confronto e estava no hospital. Nunca mais o vi. Em julho de 1944, o front avançou com a chegada do patrulhamento italiano, que se instalou na área atrás do local onde estávamos morando. Lembro-me dos italianos cantando e dançando e me passando de um colo para outro. Eles disseram que no dia seguinte poderíamos voltar a Pennapiedimonte e isso realmente aconteceu porque ocuparam a Cidade. Mas tivemos de cortar eucaliptos para consertar o telhado da nossa casa, que tinha quatro andares, e teve o último deles incendiado pelos alemães porque a altura da construção atrapalhava a visão deles.

Onde o senhor estudou?
Aos 5 anos, fiz a escola elementar, que corresponde ao primário brasileiro, em minha Cidade. Aos 11 anos, mesmo no inverno, meu pai me acordava às 4 horas para ajudá-lo a carregar pedras quase congeladas, tiradas de rochas dinamitadas. As mãos ficavam doendo de tanto frio. Ele teve uma mina de gesso, quebrava pedra, queimava no forno, amassava e a transformava em pó para peneirar. Estas pedras eram muito usadas em construções, no lugar de tijolos. Logo depois, comecei a trabalhar como servente de pedreiro e como não havia serviço onde morava, fui para Milão. Era tão pobre que não tinha dinheiro nem para pegar ônibus e precisava andar 10 quilômetros para ir e a mesma distância para voltar da escola industrial, que era como o ginásio de hoje. Lá aprendi a fazer e limar peças na oficina. Mas não terminei o curso porque quando estava no terceiro ano, toda a família veio para o Brasil, onde meu irmão mais velho, o Rocco, hoje já falecido, estava há um ano e tinha conseguido emprego.

Como foi a viagem?
Eu, meus pais e os demais irmãos (Carmela – já falecida -, Antonio e Domenico) saímos de casa no meio da neve. Um vizinho nos levou até o navio e eu fui sentado no motor do caminhão, com as bagagens. Deixamos a Itália em 31 de dezembro de 1953 e chegamos ao Porto de Santos em 24 de janeiro de 1954. Viajei de trem a São Paulo e me lembro que, quando cheguei ao Largo da Concórdia, o relógio marcava meia-noite e 10 minutos do dia 25, aniversário de 400 anos da Capital. Fomos morar na Vila Maria, na Zona Norte, pagamos aluguel 10 meses e depois mudamos para nossa casa própria, que eu e o Rocco construímos nas horas de folga do trabalho. Ele e meu pai eram empregados em uma fábrica de toldos de alumínio e, em 1955, conseguimos montar um armazém de secos e molhados na frente de casa para meu pai tomar conta. Eu cortava eucalipto para um italiano da região da Toscana, que era carpinteiro e, um dia, sofri um acidente com a serra de fita. Quase morri, levei mais de 100 pontos e fiquei oito dias no hospital. Gostava de trabalhar com ele, mas como ele queria me casar com uma de suas duas filhas e elas não aceitaram porque eu era do Sul da Itália, ele trancou a moça em um dos quartos e eu decidi sair de lá.

Onde mais o senhor trabalhou na Capital?
Fui para um restaurante, onde lavava pratos e xícaras, além de descascar cenouras e batatas, mas logo passei para a máquina de café expresso. Em seguida, uma italiana montou lanchonete e me chamou para trabalhar, mas em pouco tempo voltei para a carpintaria do italiano, de quem eu gostava muito. Ali me sentia em casa. Nesta época, conheci a Carmela, namoramos dois anos e nos casamos em 30 de julho de 1960. Ela trabalhava em tecelagem e, com a ajuda de um carrinho de mão, comecei a vender especiarias, como cravo, canela, camomila, entre outras, compradas diretamente da fábrica. Em setembro do mesmo ano, com os 78 mil cruzeiros que recebi de indenização do antigo emprego e 100 mil cruzeiros que meu pai havia me dado no casamento, comprei uma kombi para trabalhar e saía vendendo os produtos para armazéns e quitandas. Rodava tanto que às vezes nem sabia onde estava porque seguia o itinerário dos ônibus de um lugar para outro.

Como foi a vinda para Mogi das Cruzes?
Em 6 de fevereiro de 1966, vendi tudo em São Paulo e, junto com meu irmão, o Rocco, comprei uma pedreira em Biritiba Ussu, que acabamos perdendo alguns anos depois. Forneci 80% das pedras usadas no paredão da Barragem de Ponte Nova, em Salesópolis. No final de 1971, desfizemos a sociedade e comprei a área no Mogilar onde montei o primeiro posto de combustíveis, o Expedicionário, que começou a funcionar em 27 de maio do ano seguinte, e que nos últimos tempos estava alugado, mas retomei a direção recentemente. Na época, havia poucos postos na Cidade. Aliás, Mogi começou a se desenvolver depois da construção da Mogi-Dutra, porque antes havia ficado isolada e era preciso seguir pela antiga Estrada São Paulo-Rio de Janeiro, a SP-66, passando por Itaim e São Miguel, se quiséssemos ir até a Capital. Além disso, a abertura das universidades trouxe muita gente para cá que, primeiramente veio apenas para estudar, mas depois acabou gostando da Cidade, ficou e fez a vida aqui. Mogi tem localização privilegiada, está perto da Capital, do Vale do Paraíba, de rodovias, do aeroporto, do Porto de Santos, e com isso foi só crescendo. Hoje, tem cerca de 500 mil habitantes e não para de progredir.



Qual foi sua primeira impressão quando chegou aqui?
Gostei da Cidade, que era bem tranquila e tinha cerca de 60 mil habitantes. Nasci na Itália, morei em São Paulo, mas sou mogiano de coração. Mogi me deu tudo o que tenho na vida. Sempre tive envolvimento nas atividades daqui, há 21 anos sou diretor-adjunto da Associação Comercial de Mogi das Cruzes (ACMC) e, durante sete anos, fui comissário de menores voluntário, nomeado pelo juiz, na época em que a sede ficava na Rua Otto Unger.

Em quais regiões da Cidade o senhor morou?
De Biritiba Ussu, onde tive a pedreira, aluguei uma casa perto da Cotac. Depois, morei em um conjunto construído pelos Grinberg, em Braz Cubas, e ainda fui para a antiga Rua Avaré, que hoje se chama Emílio Zappile, na Vila Oliveira, onde não havia asfalto. O então prefeito Waldemar (Costa Filho) o levou até lá, mas eu e os demais moradores pagamos uma parte do custo em várias prestações. De lá, comprei a casa do José Roberto Sterse, na Rua Sérgio Plaza, 1.777, no mesmo Bairro, que era no estilo colonial, tinha paredes de 60 centímetros de espessura e quintal grande. Chamava tanto atenção que o pessoal até descia do carro para olhá-la, mas depois de ser assaltado lá duas vezes, construí no Real Park e me mudei. Hoje, na antiga casa foi construído um condomínio com 12 residências.

O senhor retornou à Itália?
Meus pais voltaram para a Itália em 1962 e vieram me visitar em 1971 no Brasil. Em 1975, ele morreu e, seis anos depois, trouxe minha mãe para morar conosco em Mogi, onde viveu até 2003, quando também faleceu. Minha primeira viagem para lá foi em 1977, com toda a família. A Cidade onde nasci não muda. Saí de lá há 62 anos e ela continua igual. No ano passado, voltei com minha mulher e o jornalista Nivaldo Marangoni, que foi conhecer o lugar onde nasci e passei a infância e juventude porque está escrevendo o livro ‘Trabalho, Dignidade e Amor a Mogi das Cruzes’, que conta minha vida e deve ser lançado este ano. Ele também fez um documentário deste meu passeio por lá.

Quais suas distrações?
Trabalhar é uma felicidade, por isso estou aqui todos os dias, faço questão de controlar o caixa do posto e não pretendo parar tão cedo, mesmo porque não consigo. Desde os 8 anos, meus filhos Isaia e Graziella trabalham comigo nos postos de gasolina, onde continuam até hoje. Eles sempre participaram de tudo e sou muito aberto com eles, assim como com meus netos. Aliás, uma grande tristeza na minha vida foi a perda da minha neta, Giulia, que morreu aos 21 anos em um acidente de carro na Rodovia dos Imigrantes, em 2015. Além do trabalho, outra distração que tenho é torcer pelo Palmeiras. Já fui várias vezes a estádios assistir aos jogos, mas da última vez o time perdeu para o Sport de 2 a 0 e parei de ir. Hoje acompanho as partidas pela televisão e não gosto muito de sair de casa, principalmente porque minha mulher sempre cozinhou muito bem, prepara as próprias massas na máquina, além de pão italiano e vários pratos deliciosos. Não se encontra em restaurantes comida tão boa como a que ela prepara, por isso já apareceu cozinhando até em reportagem da Rede Globo.

Perfil

Nome: Vittorio Di Bello
Idade: 79 anos
Nascimento: Pennapiedimonte (Itália)
Estado civil: casado há 56 anos com Carmela Matrella Di Bello
Filhos: Isaia e Graziella
Netos: Bruno, Giulia (falecida), Gabriel e Alícia
Formação: ginasial incompleto
Trabalho: comerciante

Compartilhe nas redes sociais...Share on LinkedInTweet about this on TwitterShare on FacebookShare on Google+Email this to someone