A burra do Coronel Chiquinho

Francisco de Souza Franco, o homem que dá nome à Rua Coronel Souza Franco, foi personagem importante da história da Cidade no final do século 19 e início do 20. Comerciante, proprietário e político era – no começo do século passado – o maior contribuinte de impostos da Cidade. Seu comércio ele o tinha no último quarteirão da Rua José Bonifácio.
Bem em frente à sua residência, que existe até hoje, abrigando agora um tabelionato. A construção é do século 19, reformada nas primeiras décadas do 20. Foi ali que Coronel Chiquinho, como todos o conheciam, criou as quatro filhas (Leonor, Josefina, Alice e Benedicta) e o único varão (Zeca Franco). Foi dali que os filhos saíram para casar: Zeca com Ana Campolino; Leonor com Deodato Wertheimer; Josefina com Adelino Borges Vieira e Benedicta com Leôncio Arouche de Toledo. Ali Alice viveu solteira até morrer, em 1978.

Coronel Chiquinho nasceu em Mogi, assim como seu pai, José Franco de Camargo (falecido em 1890). De fora veio Mariano Franco de Camargo.

Chegou jovem no final do século 18. Familiares contam que o dr. Mariano, como era conhecido, chegou de Campinas com um monte de dinheiro cedido pelo pai. Apaixonara-se por uma moça daqui e pediu à família recursos para adquirir propriedades por estas bandas. Comprou muita terra entre Mogi e São Paulo, no eixo do que viria a ser a Estrada Velha São Paulo-Rio.

Conforme os filhos iam casando, Coronel Chiquinho ia cedendo parte do quintal de sua casa para que os genros construíssem suas próprias residências. Só resta, hoje, a dele próprio. O comércio era um armazém de secos e molhados. Bem sortido.

Nos finais de semana, Coronel Chiquinho percorria suas propriedades nas redondezas de Mogi. Tinha especial predileção pela Fazenda da Volta Fria, terras cortadas pela atual estrada do mesmo nome, entre Mogi das Cruzes e Jundiapeba. Mas não descuidava também da Fazenda do Prejú (corruptela de prejuízo em referência à improdutividade da gleba), em Suzano. A Fazenda da Capelinha, que englobava grande parte das matas da Serra do Itapeti e hoje abriga um loteamento do mesmo nome, era apenas mata virgem.

No final do século 19, interessado em investir na Capital, Coronel Chiquinho foi procurado por procuradores de um certo Joaquim Eugênio de Lima, que lhe apresentaram os planos de um novo loteamento, de alto padrão. Coronel Chiquinho estudou os planos e optou por investir nas proximidades da Estação da Estrada de Ferro Central do Brasil, recém-inaugurada. “Esse é o futuro”, disse ele aos corretores. Comprou um quarteirão no Brás pelo dinheiro que poderia usar para comprar o dobro na Avenida Paulista, o novo loteamento de Eugênio de Lima. Consta que nunca se perdoou.Em seu armazém da Rua José Bonifácio, Coronel Chiquinho atendia, ele próprio, à clientela que incluía sitiantes nos finais de semana, e moradores da zona urbana nos dias úteis. Muitos dos clientes davam ao coronel as suas economias. Pediam-lhe que as guardasse em sua burra, grande e confiável. O coronel os atendia. E eles atendiam ao coronel quando chegava o tempo das eleições. Votavam no homem que nunca lhes negava atenção e que, intendente de Mogi das Cruzes, ia tentando colocar luz elétrica e bonde nas ruas da Cidade. Colocou luz. O bonde ficou nos planos, interrompidos pela gripe espanhola de 1918 que matou quase 22 milhões de pessoas (21.642.247) em todo o mundo. Incluindo o Coronel Chiquinho.

Diego Selzzo

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